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terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma secretária de educação que dá aulas


Cidade de Augustinópolis serve biscoito com suco na merenda por causa de baixo valor recebido do governo federal para alimentação
Renan Truffi – do Último Segundo IG.  
 Secretária de educação de Augustinópolis, Karla Santana.
foto: Renan Truffi
Professora há pelo menos 14 anos, Karla Santana, secretária de Educação de Augustinópolis (TO), cidade localizada a 720 km da capital Palmas, é daquelas profissionais que costuma dizer que “nasceu para dar aula”. Ela recebeu o convite para gerenciar a pasta no fim do ano passado, quando era diretora de um colégio da rede estadual. Teve que deixar o posto, mas decidiu que não iria se afastar do ambiente de ensino. Hoje ela é uma das poucas secretárias de Educação do Brasil que também atua como professora. Para conciliar as duas ocupações, dá aula no período noturno para estudantes do 1º, 2º e 3º ano do ensino médio do Estado.
“Já dei aula para fundamental, médio e superior. Passei por todas as fases do processo educacional. Eu gosto de dar aula, nasci pra ser professora. É interessante quando você pega uma criança que não sabe ler e meses depois vê a mudança. É bom demais. Você se sente gratificada, é como se fosse um passe de mágica. Não é, mas você sente assim”, explica depois de participar do 14º Fórum Nacional de Dirigentes Municipais de Educação, em Mata de São João, na Bahia.
Ela admite, no entanto, que a dupla função não tem sido tão boa para seus alunos. Por causa do cargo, já teve que se ausentar das salas de aula por quase dez dias de janeiro até agora. Ainda assim, quer continuar em contato com o ambiente escolar e tenta, junto ao Estado, mudar de cargo para ser orientadora ou trabalhar na biblioteca mesmo. Ela afirma que a escolha não tem nada a ver com dinheiro.
“Estou ganhando agora o mesmo que recebia quando era diretora. Inicialmente nós tentamos (mudar o cargo de professora), mas estou no período probatório. Ingressei na rede estadual há pouco tempo. De acordo com a legalidade são três anos para eu pedir licença. Então, como estou sendo avaliada, ficou um pouco mais complicado ainda. Mas o Estado já sinalizou positivamente. Eu sei que posso contribuir no ensino noturno. Não necessariamente estando em sala de aula. Eu sinto que estou prejudicando os alunos. Mas, não quero ficar muito tempo afastada do convívio da Educação em si. Você acaba tendo só uma visão e esquece de olhar como professora. Sei que meu destino e voltar pra sala de aula”, argumenta.
Merenda precária
Karla diz confiar em sua experiência como professora para gastar da melhor maneira possível a “pouca” verba que tem, sem saber dizer ainda, no entanto, quanto dispõe mensalmente. É que, com 14 escolas para cuidar em uma cidade de aproximadamente 16 mil habitantes, ela tem tirado dinheiro do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) para conseguir cobrir, por exemplo, os gastos com salário dos professores. Apesar de fazer parte da categoria, a secretária diz que o valor é muito acima do normal até mesmo para municípios mais ricos que Augustinópolis.
“Recebemos R$ 302 mil do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) para pagamento de professor, compra e aquisição de materiais. Mas tivemos que pegar mais R$ 70 mil do FPM no mês passado para poder cobrir folha de pagamento. Já estou devendo R$ 202 mil. Atualmente os salários dos professores está muito acima do piso. Muito acima. Entre R$ 1.525 e R$ 1.700. Na rede temos 60 profissionais da Educação. Não estou querendo dizer que o professor tem que ganhar pouco, mas está alto para a arrecadação do município. Lá eles são concursados para 30 horas. Em outras cidades como a nossa, os professores com 30 horas recebem R$ 1.200. Está acima do piso e acima do reajuste”, conta ao dizer que o aumento foi concedido na gestão anterior.
Karla argumenta que, apesar dessas condições para os professores, não sobra dinheiro para melhorar a merenda em Augustinópolis. Ela reclama que recebe apenas R$ 0,30 centavos do governo federal por aluno. Ainda que o município coloque uma contra partida é preciso fazer “mágica”.
“Se o valor da merenda aumentasse. Eu poderia melhorar o cardápio. O governo federal diz que temos que mandar suco e leite in natura, mas eu mando em pó porque só tenho um caminhão para fazer a distribuição e esses alimentos estragam até chegar nas escolas da zona rural. A merenda fica empobrecida. Tem dia que tenho que colocar biscoito com suco no cardápio para garantir pelo menos merenda todos os dias. Não dá para colocar arroz todo dia, sopa todo dia. Então biscoito com achocolatado, por exemplo, tem que entrar no cardápio de três a quatro vezes por mês. E tem aluno que, a gente sabe, vai na escola para poder comer. Tanto nas redes estaduais quanto nas municipais nós fazemos mágica. Transformar R$ 0,30 centavos em galinhada é mágica.”