O renascimento de Carol
Landisvalth Lima
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Carol vive sua renascença (foto: Landisvalth Lima) |
Era uma sexta-feira como outra
qualquer, num 12 de agosto do ano atual. Por acaso do tempo, o relógio
registrava 18:30. O cenário era o povoado Serra dos Correias, no município de
Heliópolis. Naquela hora Carol voltava da casa de uma amiga. Assistira a um
filme qualquer, diversão corriqueira. A estudante trazia um notebook, uma
bandeja de vidro para lasanha e outras tralhas. Na entrada da casa dos avós,
viu um homem numa motocicleta. Estava muito bem vestido num moletom, bem-apessoado
e jovem. Beirava os vinte anos, talvez menos. Bruscamente, o motoqueiro parou
frente a ela:
- Passe as coisas! - Disse de
forma tranquila.
Carol logo percebeu que era um
assalto e entrou em pânico. Pensou logo em entregar o notebook e torcia para
que, logo depois, o rapaz fosse embora e ela teria uma história para contar,
além do prejuízo. Não aconteceu apenas isso. É provável que o ex bem-apessoado
tenha conhecido o rosto quase angelical da agora apavorada garota. Além do
tempero angustiante do pânico, a escuridão impedia que ela conhecesse o seu
algoz. Por um instante torceu para que tudo acabasse ali.
Mas deu tempo ainda para que
Carol percebesse o agora nervosismo tomando conta do assaltante. Enquanto ela
estendia as mãos para entregar tudo, ele resolveu procurar uma arma.
Atabalhoadamente conseguiu sacar um provável revolver de calibre 32. O medo de
Carol virou tri pânico porque a arma foi apontada para sua cabeça.
- Além de perder suas coisas,
você vai perder a vida. – Disse e, em seguida, puxou o gatilho.
A bala não saiu.
Carol estava atordoada pela zoada
ensurdecedora provocada pelo estampido e por achar que tinha sido atingida na
cabeça. Para ela, o sangue já corria por entre seus cabelos castanhos, que
seriam lavados quando chegasse a casa dos avós que a criaram. Por um lapso de
segundo, percebendo-se viva, resolveu reagir. A bandeja que trazia na mão foi
baixada sem piedade na cabeça do atordoado bandido, que foi ao chão. Dali ela
poderia correr e gritar. Só conseguiu gritar porque se desequilibrou e caiu ao
lado do meliante.
Com o jogo empatado, o bandido
tentou terminar o serviço. Parecia que nunca havia atirado na vida. Atirou
novamente em Carol e o tiro passou perto do corpo da adolescente. Ela chegou a
sentir a quentura da bala zumbindo ao lado do seu tórax, enquanto lutava com o
assaltante para se manter viva. Sabendo que não teria sorte pela terceira vez,
Carol conseguiu segurar a mão quase assassina do bandido para evitar o revolver
apontado em sua direção.
O pai de Carol e os seus avós
correram em seu socorro. O primeiro a chegar ao local foi o pai dela. Avistou o
bandido já quase dominando a garota e já posicionado por sobre o corpo dela.
Com um golpe violento, o pai tirou o bandido de cima de Carol. Foi nessa hora
que saiu mais um tiro. Ela ainda pensava que a cabeça e o tórax estavam
perfurados por balas. Nem imaginava que a bala que a atingiu foi a do último
tiro dado. O projétil penetrou em sua cintura, a um centímetro do osso da bacia
e atravessou o seu quadril e foi sair na parte superior da coxa. O bandido
ainda disparou a arma mais duas vezes: uma na direção do pai de Carol e outra
na direção do avô. Nenhuma das balas atingiu os alvos desejados.
A estudante viu quando o bandido
conseguiu pegar sua moto e sair em disparada na direção oposta ao povoado.
Ainda ofegante, entrou na casa, depois de se certificar que todos estavam bem.
Só quando estava no banheiro percebeu que tinha sido baleada ao ver o sangue na
perna escorrendo. Foi socorrida e levada ao hospital. Tinha hematomas por todo
o corpo e uma mão inchada. Na luta com o bandido, chegou a esmurrá-lo.
Doze dias após o acontecido, depois de
depoimentos aos policiais, Carol não consegue identificar o bandido, mas promete
voltar à escola dia 29 de agosto. Ainda está arrastando uma perna, mas sente
falta dos estudos, das colegas... da vida rotineira. Agora, principalmente
agora, a menina baleada da Serra dos Correias sabe que teve muita sorte.
Renasceu! Embora leve no rosto, por algum tempo, as marcas inevitáveis da
tragédia, também sente na alma a necessidade de valorizar a segunda vida que
recebeu. Carol é uma das poucas vítimas sortudas deste mundo cada vez mais
violento e desregrado.