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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Leonardo Boff ataca a mídia e prega censura

                                                           Landisvalth Lima
Leonardo Boff
Há uma luz indicando que vivemos a era dos fundamentalismos e que a liberdade de imprensa nunca esteve tão ameaçada no Brasil e no mundo. O avanço tecnológico parece não ser suficiente para abrir as mentes e desencadear processos criativos nas diversas áreas da atividade humana. Vivemos um período de baixa produção artística. Não temos mais novos e criativos pensadores nas artes. Os que estão vivos não terão substitutos. A pobreza nossa é vergonhosa. Mas há uma área onde a criatividade vem marcando presença timidamente: o jornalismo. Com o crescimento da mídia, a imprensa passou a ser a bola da vez. Não é preciso dizer que são poucas as religiões que não possuem canais de TV, Rádio ou programas.
Estamos iniciando a era da mídia e isto está atormentando muitos teóricos. É inacreditável ler o que escreveu o guru da Teologia da Libertação, frei Leonardo Boff. No início do artigo, ele logo deixa claro seu posicionamento sobre os que aconteceu com a Charlie Hebdo. “Eu condeno os atentados em Paris, condeno todos os atentados e toda a violência, apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou da paz e me esforço para ter auto controle sobre minhas emoções…”. Deixando claro que não é violento nem a favor da violência, Boff diz com todas as letras que “também não se devem criar as condições psicológicas e políticas que levem a alguns radicais a lançarem mão de meios reprováveis sobre todos os aspectos”. Traduzindo, para Boff, a mulher não deve usar a minissaia para não despertar o tarado. A culpa é dela por ter sido estuprada!
 Mais adiante, o Leonardo Boff revela seu ódio à imprensa no Brasil. Chega a dizer que “Ainda estou constrangido pelos atentados à verdade, à boa imprensa, à honestidade, que a revista Veja, a Globo e outros veículos da imprensa brasileira promoveram nesta última eleição.”  E que não me venham aqui dizer que eu estou defendendo estes veículos, mas o que eles disseram no período eleitoral, pode ter até exagerado, mas tudo está aí acontecendo. Não há uma linha sequer de Boff, pelo menos neste artigo, condenando o ato violento de surrupiar os cofres da nação. O articulista diz ter conhecido a revista Charlie Hebdo, em 2006, “já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita europeia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”. Ele nunca gostou da veia satírica da revista e parece também que detestava o Charb, que comandava a revista desde 2009. “Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã, ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 201”, afirma Boff.
O cartunista Charb, morto no atentado
 O teólogo, em nenhum momento, exalta o esforço da imprensa internacional em separar o terrorismo da religião muçulmana, condena os que defendem os cartunistas e, de quebra, a Veja:“Alguns chamam os cartunistas mortos de “heróis” ou de os “gigantes do humor politicamente incorreto”, outros muitos os chamam de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo, como os comentários políticos de colunistas da Veja, são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.” Um dos motivos citados é a intolerância.” O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os católicos…”. Só que Boff se esquece que eles não eram religiosos, eram Jornalistas. Impor limites a eles é impor limites à arte. Quem não deve retratar Maomé são os seus seguidores. Quem reza é quem tem fé. Se estes limites ultrapassados causarem danos, há a Lei. Então se eu fizer uma charge tomando sol ao lado de Cristo, em Copacabana, perguntando: “E aí, meu Rei? Vai uma caipirosca?”, é falta de respeito? Vou ser metralhado no dia seguinte?  
 O outro motivo citado por Boff é: “A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência, com trocadilhos infames com “matar” e “explodir”…).” Aqui Boff retruca porque ele sabe que as charges não eram dirigidas aos muçulmanos Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…”. Então a generalização é um problema da cultura e não dos jornalistas. É um problema de falta de educação, que não permite ao povo separar o joio do trigo. Há também uma generalização no Brasil de que todos os políticos são ladrões. Não vi ninguém dizer que isso era ofensivo ou perigoso. A revista também tem que pagar por isso?
É o próprio Boff quem admite adiante o poder da piada, citando o poeta satírico francês Jean de Santeul: os costumes são corrigidos rindo-se deles. Mas, sem demora, volta a carga: “Mas piadas são sempre preconceituosas, elas transmitem e alimentam o preconceito. Se ela (a piada) sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas…”. Mais uma vez ele condena a vítima e não o algoz.
E fica a pergunta: Charlie Hebdo só pregava contra os muçulmanos? Claro que não. A revista apontava seu lápis para tudo que considerava retrógrado. Mas Boff também cita isso: “Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus…”. Mais à frente: “Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.(...) o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso, assim como deveria/deve punir a Veja por suas mentiras. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.” Só que Leonardo Boff não estabelece quem deve traçar esta linha. Acredito que ele deveria estabelecer o limite porque ele é a favor da censura à imprensa.” Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim…”. Aqui ele confunde proteção ao direito individual do indivíduo com censura. “Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis ou bombas.” Mas já é assim, Boff! Sempre foi assim! O que você quer é a regulação da mídia, que é uma censura prévia defendida pelo PT. 
Leonardo Boff encerra o artigo dizendo que condena o atentado, mas “eu não sou Charlie. Je ne suis pas Charlie.”. É a opinião dele e deve ser respeitada, mas todos nós sabemos dos perigos do fundamentalismo. Ao longo da história, milhares de Judeus foram mortos, cientistas foram queimados vivos, outros morreram nas prisões, obras foram censuradas, mulheres deportadas, homens castrados... Tudo por religião ou em nome de Deus, Alá, Maomé... Todas elas estavam erradas. Os que pagaram as conquistas com a vida, hoje são heróis do mundo. Os radicais religiosos desapareceram. Outros reaparecem para matar e calar. Enquanto isso, nós vamos pedindo a Deus que dê juízo a estes que querem segurar o mundo numa rédea. Não há nada que nos impeça de viver a palavra LIBERDADE! Je suis Charlie!