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Sátiro Dias e Antônio Torres: vencendo a tirania do óbvio!

Nesta reportagem, o Contraprosa foi a Sátiro Dias para descobrir a relação entre a cidade e a obra de Antônio Torres. (Imagem: Contraprosa)

Quando vim ao mundo, o escritor Antônio Torres já caminhava pelas ruas barulhentas de São Paulo. Demorou uma eternidade para que eu tivesse contato com sua obra. Curioso é que minha infância toda foi marcada por palavras como Junco, Sátiro Dias, Payayá, Inhambupe, Pataíba, Água Fria, Nova Soure e tantas outras que sempre me lembravam lugares distantes, quase inacessíveis. Em Serrinha, quando meu pai não estava em São Paulo, sempre se referia a estas localidades para contar um fato ou revelar um perrengue com o caminhão que dirigia. Minha vida de professor, radialista e jornalista me levou a vários destes lugares, menos ao Junco.

Na última vez que passei em Água Fria, Pataíba e Biritinga, fazendo uma série de reportagens sobre a BA 084, já com as cinco primeiras edições feitas no meu canal do You Tube, não pude visitar Sátiro Dias por já ser tarde. No último dia 13 de janeiro, retornei a Pataíba e Biritinga para fazer as imagens pelo dia e, finalmente, pude trilhar, pela primeira vez, sessenta anos após nascido, a estrada de barro batido, saindo da BA 084, entre Biritinga e Nova Soure, seguindo para a querida cidade de Antônio Torres. O que faria eu em Sátiro Dias? Minha maior curiosidade era saber como a cidade se relaciona com o fato de ter um escritor membro da Academia Brasileira de Letras.

Cheguei em Sátiro Dias pela porta do fundo, pelo trecho de acesso à BA 084 feito pela rodovia BA 233. Esta mesma estrada liga a cidade à BR 110, separadas por breves 40 quilômetros de asfalto, principal porta de entrada e saída para o mundo. Mas a história precisa ser contada e as origens da cidade datam de 1884, quando por lá chegou a família de João da Cruz, natural de Bom Conselho, para cuidar das terras do Conselheiro Dantas. Manoel José da Cruz, filho do João, naquele ano, subiu num morro próximo,  fincou uma cruz, invocando a guarda e a proteção divina para o seu povo. Havia apenas 3 ou 4 casas, na localidade denominada Junco de Fora. Não é por acaso que Antônio Torres tem o Cruz como sobrenome seu e de muitos dos seus personagens. Mas o nome que ficou foi Junco, até que, em 14 de agosto de 1958, o município é emancipado de Inhambupe. O nome escolhido foi do médico-cirurgião, bacharel e político Sátiro de Oliveira Dias, nascido 96 anos antes de Antônio Torres, também brotado na região. Quando o filho de João da Cruz iniciava o Junco, Sátiro Dias era governador da província do Ceará e decretava o fim da escravidão naquele estado. Foi deputado, secretário, diretor de instrução pública e tantos outros cargos, tanto na época da monarquia quanto na república. Morreu aos 69 anos, em 1913, como vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. O nome do município não poderia ser outro.

De lá para cá, Sátiro Dias revelou muitos talentos e cérebros para o Brasil e para o mundo, mas o mais conhecido é Antônio Torres, eleito para a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras em 7 de novembro de 2013, tomando posse no ano seguinte. Foi sua terceira tentativa e ele não pode se queixar. Foram 34 votos, de 39 possíveis, com 5 concorrentes.

Antes de conhecer o Junco, conheci parte da obra de Antônio Torres. Dos seus 12 romances, li três: Essa Terra, Meu querido canibal e Querida Cidade. Destes, só não tem relação com Sátiro Dias o que tem Cunhambebe como um dos seus personagens. Embora tenha começado pelo Canibal, Essa Terra me deixou atônito e Querida Cidade foi o sorvete do verão. Depois de ter lido o último romance de Antônio Torres, fui obrigado a reler Essa Terra. Precisava de respostas interpretativas e da consolidação da certeza de que precisarei ler o resto da obra do autor, e urgente!

Mas qual a relação que a cidade mantém com o escritor hoje? Andando pelas ruas de Sátiro Dias, a marca mais forte que a cidade mantém com o escritor é o seu nome estampado na biblioteca municipal. Para nosso desencanto, estava fechada para uma limpeza geral. Conversamos com pessoas e procuramos saber o grau de pertencimento do nome do autor com os moradores. Estava cravado que um filho daquelas bandas fazia sucesso em grande cidades do país e no estrangeiro e que era parente de fulano e sicrano. Leram algo do autor? Bom, aí eu estava querendo demais. Não é do nosso feitio a leitura de um livro. Talvez os estudantes, mas o período era de recesso escolar. 

Sátiro Dias pode se orgulhar de ter um nome na ABL, mas não seria surpresa se no futuro tenha mais um. É que há muitos escritores nascidos na cidade. Além do autor de Essa Terra, temos Marcelo Torres, seu primo, que hoje reside em Brasília. Em 2020 ficou entre os cinco finalistas na disputa do Prêmio Jabuti, com o livro de crônicas O dia em que achei Drummond caído na rua.  É autor ainda de O bê-á-bá de Brasília e Os nomes da rosa. Parou por aí? Nada. Ainda temos Décio Torres Cruz, professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, autor de “The Cinematic Novel and Postmodern Pop Fiction: The Case of Manuel Puig”, segundo livro publicado por Décio Torres em língua inglesa fora do Brasil. O primeiro foi “Postmodern Metanarratives: Blade Runner and Literature in the Age of Image”, publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos. Além desses, Décio publicou outros oito livros: “Literatura (pós-colonial) caribenha de língua inglesa”, “English Online: Inglês instrumental para informática”; “O pop: literatura, mídia & outras artes”, “Idea Factory: 100 Games and Fun Activities for your English Classes”; “Inglês para Administração e Economia”; “Inglês para Turismo e Hotelaria” e “Inglês.com.textos para informática”. Da mesma família ainda temos o Ronaldo Torres, diretor do grupo teatral Mandacaru e autor do livro mais completo sobre a história da cidade: Arraial do Junco: Crônica de sua existência. Mas não vamos pensar que o talento parou apenas na família Torres Cruz. Ainda temos o Luís Eudes, escritor do romance Cangalha do vento e de livros de contos. E para não dizer que não falei das mulheres, é preciso lembrar da escritora e professora Cristiana Alves, autora de Entrelaçados, Sabor de uma lembrança, Coração a Esmo e Tatuagem. Cristiana é professora de língua e literatura brasileira, mestre em crítica cultural pela UNEB e ainda encontra tempo para ser agente cultural na região. E ficaríamos aqui ainda muito tempo relacionando pessoas que honram o nome do município na música, no direito, na política. Mas sabemos que há o outro lado, talvez representado pelo personagem Nelo, de Essa Terra. Sátiro Dias está encravada no sertão baiano, e o sofrimento por aqui é algo comum. Se Nelo pode ser a metáfora adequada para todos que fogem a busca de um lugar ao sol, mas é consumido por um conjunto de desgraças, Totonhim e o protagonista de Querida Cidade podem ser a representação daqueles que, quando tudo parece perdido, dobram a aposta. Antônio Torres foi derrotado duas vezes para depois chegar à ABL. O próprio fundador da academia não seria aceito nela se não fosse ele o idealizador. O Brasil é injusto com os seus talentos. E quanto mais distantes estiverem do eixo central da elite cultural brasileira, mais caminho terão de andar para chegar ao seu lugar justo. Quando mergulhamos na obra de Antônio Torres entendemos porque Sátiro Dias teve 4 prefeitos entre 2006 e 2008. Como em toda nossa região, a política é um negócio que envolve ódio, exploração da esperança. Não é nada parecido com a visão da construção de um futuro melhor. As desavenças da família de Totonhim são frutos da falta de perspectiva em que vivemos, e isso nunca se resolve. Uma praça é construída, uma rua é calçada, mais uma escola é inaugurada, mas e o progresso? Ele está mais associado ao esforço pessoal que coletivo. Teremos raríssimos Antônio Torres enquanto nossa região não valorizar as coisas que trazem benefícios de fato para a coletividade. É por isso que devemos louvar a existência de um escritor que, rompendo todos os prognósticos mais comuns, venceu a tirania do óbvio. Uma cidade do interior da Bahia, com pouco mais de 20 mil habitantes, com um sistema político perverso, com uma educação pobre, com falta absoluta de políticas públicas voltadas para o progresso coletivo, com o povo provido de uma alma estupidamente humilde e orgulhosa, só tem um Antônio Torres pelo exercício de uma luta pessoal hercúlea, uma verdadeira saga. É por isso que a cidade precisa aproveitar a oportunidade e celebrar o feito. Urge que Sátiro Dias pense numa fundação para abrigar a trajetória quase única deste sobrevivente dos sertões, que encontrou na educação e na literatura as sementes fecundas do viver e do progredir.

Veja o vídeo a seguir: