Do Tiradentes como herói ao ser comum
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Tiradentes, agindo hoje, seria visto como herói ou otário? |
Não há mais Tiradentes. Os heróis de Cazuza, no tempo e espaço dele, morreram de overdose. No meu tempo e espaço, procuro homens comuns, seres reais, que apenas cumpram com suas obrigações. Procuro mulheres que criem crianças para, no futuro, cumprirem com as obrigações. Coisas comuns. Quero que quem vá para a escola estude, que quem ensine professe o conhecimento, que os pastores guiem com o exemplo, que os juízes julguem dentro das leis, que os protocolos científicos sejam seguidos para salvar os enfermos, que o comerciante lucre o que for justo, que o administrador público seja probo, que a democracia seja nossa palavra de ordem. Coisas comuns que parecem muito distantes.
Trinta anos antes da nossa independência, um homem dava sua vida por um país melhor e virou herói nacional. Nossos heróis hoje desviam recursos da merenda escolar, recebem propinas de empreiteiros, traficam drogas até em aviões das Força Armadas, deturpam a Constituição para permitir a liberdade de outros supostos heróis. Os heróis da nossa era destroem florestas para que a boiada passe, vendem feijões abençoados para curar doenças, negam a ciência, a democracia e as liberdades individuais. Nossos heróis estão armados até os dentes para buscar uma liberdade que nos tira outra liberdade e pedem para que façamos o que eles não conseguem fazer. Nossos heróis roubam, mentem, traficam, matam, detestam seres humanos e animais. Nossos heróis odeiam o outro.
A deturpação da palavra herói nos dias de hoje faz com que as pessoas de boa vontade enxerguem no homem ou mulher comuns a salvação da nossa nação. É só perceber que, se existisse hoje e praticasse o que o levou à forca, Tiradentes seria considerado um grande otário ou babaca.