Professora salva 58 crianças em Mariana
Moradores correram para locais
altos após saber do rompimento das barragens, mas ninguém do colégio estava ciente
da gravidade da situação
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Eliene:"Qualquer um faria o mesmo". (foto:Reuters/Ricardo Morais) |
A primeira reação que Eliene
Almeida, diretora de uma escola municipal em Bento Rodrigues, distrito de
Mariana, em Minas Gerais, recebeu sobre a inundação de lama que destruiu seu
vilarejo foi um grito de seu marido. Então ela reuniu as crianças e salvou 58.
A maioria dos moradores correu
para locais altos após ouvir notícias sobre o rompimento de barragens da
mineradora Samarco, mas ninguém dentro da escola estava ciente de que uma
muralha de 20 metros de lama e água estava se aproximando.
O marido de Eliene correu para a
escola e alertou todos. "Ele chegou gritando que tínhamos que
correr", disse Eliene, em entrevista em um hotel que está recebendo
sobreviventes do desastre ocorrido na quinta-feira no distrito do município
mineiro de Mariana. Desesperada, ela reuniu as crianças, na maioria com idades
entre 11 e 16 anos. "Em três minutos todos já estavam fora", disse.
A inundação matou pelo menos
duas pessoas. Outros dois corpos foram encontrados, mas ainda não foi
confirmado se essas duas mortes têm relação com o acidente. Nesta
segunda-feira, quatro dias depois do desastre, 25 pessoas ainda estão
desaparecidas, mas todos os 58 alunos de Eliene sobreviveram.
Vestindo calças vermelhas e uma
camiseta roxa, ela segurava seu filho de um ano e seis meses no parque infantil
do hotel, enquanto recordava calmamente a retirada dos alunos. A perna de seu
filho estava em um gesso, após sofrer um tombo no hotel. "Ele está se
acostumando com a casa nova", disse Eliene, 31 anos, esboçando metade de
um sorriso.
Pouco restou da escola que era o
orgulho do vilarejo de 600 habitantes. Somente o telhado está visível, o resto
está submerso em espessa camada de lama e resíduos de minério de ferro das
barragens da Samarco, pertencente às gigantes BHP Billiton e Vale. A falta de
uma sirene ou de um plano de emergência para a retirada dos vilarejos próximos
às barragens é uma queixa constante dos que foram atingidos pelas inundações e
algo que procuradores dizem que questionarão.
Um relatório de 2013 de um
procurador estadual alertou sobre sérios problemas de segurança na barragem da
Samarco. De acordo com o relatório, um plano de emergência deveria ter sido
criado para Bento Rodrigues, com exercícios práticos, como condição para a
renovação da licença para a barragem. Os moradores dizem que tal plano nunca
foi formulado.
O prefeito de Mariana, Duarte
Junior, que foi levado para um hospital no domingo por suspeita de um ataque
cardíaco por conta da falta de sono e estresse desde o acidente, chamou Eliene
de "heroína". "Não vejo assim", disse a diretora da escola,
encolhendo os ombros. "Qualquer um teria feito o mesmo". Ela disse
que foi sorte a inundação ter ocorrido à tarde, quando os alunos mais velhos,
que conseguem se mover mais rapidamente, estavam em aula.
Outro fator positivo era o
tamanho grande dos portões de entrada, que permitiram a fuga das pessoas.
"Poderia ter sido muito pior", afirmou. Eliene espera que uma nova
escola seja aberta e diz que é importante que as crianças voltem a ter aulas.
Mesmo assim, diz ela, as coisas nunca mais serão as mesmas. "Você pode
construir uma escola nova, mas todo o trabalho que ocorreu naquela escola em
Bento, o que significava para a comunidade, foi embora para sempre",
acrescentou.
Informações REUTERS e portal UOL.