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domingo, 11 de junho de 2017

Heloísa Helena: história de resistência e verdade

A ex-senadora que chamou a atenção do mundo está hoje na Rede Sustentabilidade e quer ajudar Marina Silva a consolidar uma identidade para a militância do partido
Heloísa Helena em Seabra-BA (foto: Landisvalth Lima)
O nome dela é Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho. Nasceu na cidade de Pão de Açúcar, no estado de Alagoas, às margens do Rio São Francisco. Completou no último dia 6 de junho seus 55 anos de vida, boa parte deles dedicados à luta contra as mazelas que insistem em tomar conta do país. Ao olhar para ela, para os seus cabelos já repletos das mechas brancas confirmadoras dos nascidos em 1962, ninguém jamais imaginaria tratar-se de uma mulher que desafiou boa parte dos coronéis da política deste país. Amável, sempre sorridente, solícita com todos e dona de uma capacidade ímpar de ouvir humildemente. Uma vez na tribuna, com o microfone na mão, ela não deixa para amanhã as verdades que devem ser ditas hoje.
Heloísa Helena parece que ainda não se cansou da luta, embora tenha já afirmado o ano passado que estava aposentada das urnas. Todos se lembram que ela foi a 3ª colocada nas eleições presidenciais em 2006, foi a primeira senadora eleita pelo estado de Alagoas, e pelo PT. Expulsa do Partido dos Trabalhadores em 2003, fundou o PSOL em 2006. Teve a coragem de deixar a presidência da legenda quando o PSOL resolveu apoiar Dilma Rousseff. Foi ainda deputada estadual e vice-prefeita de Maceió. Sem ligação com o estrelismo, disputou e ganhou dois mandatos seguidos de vereadora em Maceió.
Heloísa Helena é atualmente presidente da fundação ligada à Rede Sustentabilidade e também assumiu a coordenação da organização partidária. Sempre foi ligada, desde muito jovem, aos movimentos sociais. Durante a década de 1990, participou, no PT em Maceió, de ações que visavam à defesa de minorias e segmentos sociais menos favorecidos. Candidata pela primeira vez em 1992, se elegeu vice-prefeita de Maceió na chapa do então governador Ronaldo Lessa (PSB). Dois anos depois, foi eleita deputada estadual, a primeira pelo PT em Alagoas.
Em 1996, certamente não gostando dos rumos tomados pelo grupo político que ajudou a chegar ao poder, rompeu com Lessa e candidatou-se à Prefeitura de Maceió contra a então secretária da saúde do município, Kátia Born (PSB), que acabou eleita. Mesmo liderando as pesquisas desde o início do processo eleitoral, foi derrotada no segundo turno. Em outubro de 1998, Heloísa Helena, ainda no PT, é eleita com 374.931 votos como a primeira senadora mulher da República Federativa do Brasil, por seu estado natal, derrotando o então senador Guilherme Palmeira, do então PFL.  Heloísa Helena é formada em Enfermagem e virou professora de Epidemiologia da UFAL – Universidade Federal de Alagoas.  
A ex-senado parece incansável na luta para fazer este país melhor (foto: Landisvalth Lima)
No senado, Heloísa Helena foi a principal pedra no sapato no neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso e do PSDB. Acusava o governo do desmantelamento das políticas sociais, do Estado e da economia nacional, produzindo o mais amplo processo de exclusão social já visto no Brasil, levando desespero a milhares de trabalhadores brasileiros. Chegou a assumir a vice-presidência da Comissão de Assuntos Sociais do Senado e era titular do Conselho de Ética do Senado. Não é necessário dizer que sua participação era garantia de debate constante e de combate às desigualdades sociais. Graças à atuação marcante, virou Líder da Oposição em 2000. Heloísa também apoiou o pedido de impeachment contra FHC no segundo mandato dele, envolvendo a questão do PROER. Aliás, a ex-senadora sempre foi coerente. La viu o PT pedir o impeachment de todos os presidentes da república eleitos pelo voto popular após a redemocratização.
Ao contrário do PSOL e parte da Rede, Heloísa viu o impeachment de Dilma como um ato legal. Agora na Rede, Heloísa não entende como a esquerda brada a saída de Dilma como um golpe, embora reconheça que a legitimidade do cargo de Temer não significa legitimidade política. Essa coerência trouxe muitos problemas para Heloísa. Em 2002 se recusou a ter como vice um político do PL e renunciou à candidatura ao governo de Alagoas. Não queria aliança política com seguidores de Fernando Collor e políticos ligados ao narcotráfico. No ano seguinte, com a vitória de Lula, a última coisa que o PT queria era uma petista coerente. Não aprovou a política econômica do PT e se negou a ratificar o nome de Henrique Meireles para o Banco Central. Além disso, a então senadora teria que engolir o nome de Sarney para presidência do Senado. Era demais para sua biografia. O embate com o governo do PT foi inevitável.  Hoje, a reforma da Previdência, que está fazendo petistas bradarem seus ideais socialistas e revolucionários contra o “governo golpista”, lembra muito a saída de Heloísa Helena do PT. Por entender que o projeto tiraria direitos dos servidores públicos, Heloísa votou contra. Foi expulsa do PT.
Heloísa Helena com os representantes da Rede em Seabra-BA (foto: Landisvalth Lima)
Não dá para entender hoje como José Dirceu e José Genoíno, praticamente os responsáveis pela expulsão dos petistas naquela época, mesmo envolvidos em maracutaias, são considerados heróis do Partido dos Trabalhadores. Enquanto isso, Heloísa Helena segue sua trajetória e, até aqui, não recebeu o reconhecimento dos chamados “esquerdistas”. Mas a ex-senadora deve ter engolido seco quando viu o partido que ela criou, o PSOL, com os expulsos e não reconhecidos do PT, apoiar o próprio algoz, mesmo depois de tanta denúncia envolvendo corrupção e desmonte da Petrobras.  Já vereadora em Maceió, num discurso histórico, disse que o PT frustrou as expectativas dos socialistas brasileiros, porque não transformou o Brasil em uma nação socialista e não resolveu a triste estimativa de dezesseis milhões de brasileiros vivendo em situação de pobreza extrema.
Mas a luta de Heloísa foi reconhecida, claro, não por socialistas. Estes têm uma dificuldade em reconhecer os verdadeiros batalhadores. Precisam de mitos, jamais da realidade. Em 2005 foi agraciada, pelo Governo do Estado de Alagoas, com a Medalha Marechal Floriano Peixoto. Ainda no mesmo ano recebeu a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Também em 2005 foi eleita pela revista Forbes a mulher mais influente na política e no legislativo Brasileiro. Para fechar o ano glorioso, em dezembro, os profissionais de comunicação, agência de publicidade e leitores da Revista Isto É Gente elegeram Heloísa Helena como Personalidade do ano de 2005.
Sempre amável e sorridente com a militância (foto: Landisvalth Lima)
Agora, Heloísa é bem recebida na Rede, mas ecoam ainda o martírio sofrido na sua caminhada política. Teve candidaturas impugnadas, boatos espalhados para prejudicar sua candidatura, silêncio da imprensa do seu estado e outros senões. Mesmo assim, parece ainda ter energia para uma longa caminhada. Se depender da disposição demonstrada em discurso feito no encontro da Rede na cidade de Seabra-BA, não há dúvida de que Marina Silva recebeu extraordinário reforço para as eleições de 2018. Como também participa da organização do partido, Heloísa Helena tem uma missão difícil: dar identidade à Rede Sustentabilidade. O partido não pode entrar na velha dicotomia política do nós contra eles. Precisa ser uma real alternativa, uma terceira via independente, distante dos chavões da esquerda ultrapassada, sem perder sua opção pelo social, pela ética e pela luta pelo progresso sustentável. Não pode, como fez o PSOL, virar satélite rebelde do PT. 
Por tudo isso, é preciso reconhecer que Heloísa Helena hoje está acima dos partidos. Como Marina Silva, representa a marca da luta de um país que se nega ao não ser. É uma personalidade que vai além das agremiações políticas, que não se contenta apenas em ver a casa arrumada, porque sempre é possível ir além das possibilidades. Heloísa Helena é hoje patrimônio político do Brasil e símbolo daqueles que têm a capacidade de dizer sempre a verdade.