Exclusivo!

Rede com nova direção na Bahia

Os novos dirigentes da Rede na Bahia (foto: Landisvalth Lima) O partido Rede Sustentabilidade elegeu neste domingo (10) a sua nova com...

Novidade

sábado, 4 de outubro de 2014

Marina pode ser presidente do Brasil, mas sem apoio da maioria de negros e pobres

                                                             Landisvalth Lima
Marina Silva (PSB)
Uma contradição está revelando a verdadeira face do Brasil. Aqui, diferente do que ocorre em muitos países, negro não vota em negro e pobre só vota em rico. Claro que isso não é regra geral, mas, segundo pesquisa Datafolha, entre os que recebem o Bolsa Família, Dilma chega a pontuar em 63 pontos. Marina não chega a 20.  
 Em reportagem do jornalista Brian Winters, da Reuters, publicado no portal do UOL Eleições, os brasileiros podem fazer história este mês caso Marina Silva (PSB), uma filha de seringueiros pobres da Amazônia, seja eleita a primeira presidente negra do país. Ainda assim, Marina encontra-se atrás da presidente Dilma Rousseff (PT), que tenta a reeleição pelo PT, nas preferências entre os eleitores de ascendência africana.
A desvantagem, que contrasta com o que aconteceu no caso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que foi eleito em 2008 e reeleito em 2012 com massivo apoio dos norte-americanos negros, pode custar a Marina a vitória em uma acirrada corrida presidencial. As razões por trás das dificuldades de Marina ecoam com eloquência a própria história brasileira e sua complexa relação com as questões raciais, assim como espelha o recente progresso social que tem rendido à presidente Dilma favoritismo para vencer a reeleição, apesar de uma economia em baixo crescimento.
Mas essa contradição também está presente entre estudantes universitários, tidos como eleitores de Dilma para evitar o retorno do PSDB ao governo. Não houve migração de eleitores de Dilma para Marina, mas de indecisos e descrentes para Marina. Na maioria, classe média alta e ricos. Nas últimas semanas, a Reuters entrevistou mais de vinte brasileiros negros em três cidades. Muitos dizem que ficariam orgulhosos em ver Marina vencer --especialmente em um país no qual os negros têm sido historicamente sub-representados em governos, universidades e diversos outros setores da sociedade.
No entanto, eles também afirmam que estão mais focados na economia do que em qualquer outro fator. Desde que assumiu o poder em 2003, o PT promoveu grandes avanços na redução da pobreza, especialmente entre negros. Isto é mais uma espécie de desculpa para justificar o voto. Salvador é a capital mais negra do Brasil e só teve, em toda sua história, um único prefeito negro. "Ninguém quer voltar ao passado", disse Gustavo Leira, um servidor público aposentado de 71 anos, em Brasília. A raça da Marina é importante, disse ele, "mas não a coisa mais importante".
Marina, cuja plataforma possui um posicionamento mais ao centro e favorável ao mercado, tem em grande medida evitado tocar no tema racial, refletindo uma longa tradição na política e na sociedade brasileiras. A esmagadora maioria dos brasileiros evita discutir questões raciais, preferindo, em vez disso, falar em termos de classe social. Ao longo dos séculos, o Brasil recebeu 10 vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Hoje, os negros brasileiros têm probabilidade três vezes maior do que brancos de sofrer com a pobreza extrema. Entretanto, parece adorar os brancos e odiar sua própria raça, quando a questão é poder.
Perguntada em uma entrevista à Reuters na semana passada o que significaria ser a primeira presidente negra do Brasil, Marina respondeu: "Não somente (isso)... Eu também seria a primeira ambientalista. Tenho muito orgulho de minha identidade como mulher negra", acrescentou ela. "Mas não faço uso da minha fé ou minha cor. Vou governar para todos. Para negros, brancos, crentes e descrentes, independentemente de sua cor ou condição social", afirmou. Seria uma bênção se tal comportamento de negros e pobres fosse um indicativo da não existência do preconceito entre nós, mas não é isso. Marina também é vítima do preconceito contra os evangélicos, do mesmo jeito que o candomblé, o homossexualismo, o uso de drogas e outros sofrem discriminação por parte de muitos segmentos evangélicos.
Em suma, parece que o que menos importa é o programa, o preparo, o debate. Dilma, se vencer, não será por seus méritos, mas por ser aliada de Lula e por causa dos programas sociais. Aécio, se vencer, não será por ser um bom gerente, mas por ser antipetista. Marina, mesmo se esgoelando para representar o novo, para fugir da dicotomia PT X PSDB, pode perder para o seu próprio povo. A coisa é tão complexa que, em qualquer país do mundo, o escândalo da Petrobras derrubaria um governo inteiro e provocaria até suicídios dos políticos envolvidos. Aqui, principalmente entre os pobres, político é ladrão mesmo. Se roubar e me der algo, é o cara. E ainda tem gente que não entendeu por que Joaquim Barbosa pediu aposentadoria. Enquanto ele lutava para colocar corruptos na cadeia, a maioria do povo brasileiro aprovava o governo que permitiu a falcatrua. E não fica só por aí. Vários políticos condenados pelos tribunais eleitorais dos estados lideram as pesquisas ou constam em provável lista de eleitos. Só para citar: José Roberto Arruda (DF), Paulo Maluf (SP), André Moura (SE) e por aí vai.