Novidade

quarta-feira, 6 de março de 2019

Tia Dejinha foi ao Pedrão

Tia Dejinha (de cajado), Ana Dalva e Perolina em busca dos antepassados (foto: Landisvalth Lima)

Há muito tempo eu tinha prometido a minha tia que faríamos uma viagem ao município de Pedrão, localizado na região de Feira de Santana. Motivos não faltavam, mas o principal era que ela nos passava a ideia de que já está muito velha e precisava tentar rever seus antepassados. Maria Djanira Santos da Anunciação, carinhosamente chamada pelos inúmeros sobrinhos de Tia Dejinha, nasceu na fazenda Sapateiro, próximo às fazendas Tiririca, Tamburi e Umburana, em 1933, no 12º dia daquele ano, em Serrinha. É a filha mais idosa de Artur José dos Santos e Celestina Teixeira da Silva. As outras duas, Joana (minha mãe) e Isabel já faleceram.
Os casarões de Pedrão. Tempos de fartura! (Foto: Landisvalth Lima)
Neste carnaval, aproveitamos a segunda-feira para irmos ao Pedrão. Minha prima Perolina Marinho, única filha de Tia Dejinha e do ex-vereador José Felipe da Anunciação, conhecido por Zé de Sindé, ficou encarregada da confirmação da feira do município. Como lá não tem carnaval, a prefeitura manteve a feira na segunda. Saímos de Feira de Santana, depois de um fim de domingo regado a Cláudio, Perla, Heitor e Old Parr. Da BR 101, entramos na BA-503, totalmente em asfalto novíssimo. Sem nenhum embaraço, chegamos ao Pedrão. A cidade fica no alto de um morro, como se fosse no alto de uma grande pedra. Talvez daí tenha surgido o seu nome.
A feira se concentra na frente do Mercado Municipal (foto: L. Lima)
A povoação em Pedrão começou por volta de 1745. O casal Francisco Ferreira de Moura e Maria Mendes Bezerra chegou ao local e construiu um sobrado. Usaram para isso cerca de 30 escravos. Forma daí o primeiro núcleo familiar com os filhos João Ferreira de Moura, Padre André Ferreira de Moura, Eusébio Ferreira de Moura e Luiza Ferreira de Moura. Em 1779, construíram a primeira capela do Sagrado Coração de Jesus onde hoje se encontra o Cemitério. O primeiro vigário foi justamente o padre André Moura. Em 1782, iniciaram a construção da Igreja Matriz e mais dois sobrados, um deles pertencente a Miguel Mendes, o primeiro a plantar de cana-de-açúcar no local.
Um tempinho para a Fé (foto: L. Lima)
Dos pioneiros das famílias Moura e Mendes para a proliferação de engenhos e alambiques foi um pulo. A região passou à condição de uma das mais bem povoadas da Bahia. Só para se ter uma ideia, no censo de 1890, Pedrão aparecida com 13.763 moradores, ainda então pertencente a Purificação (hoje Santo Amaro), que tinha um total de mais de 70 mil moradores. Na época, Salvador tinha 174 mil habitantes e Feira de Santana contava com 61 mil viventes. Hoje Pedrão tem cerca de 7 mil pessoas. O município também ganhou destaque com os chamados Encourados de Pedrão. Foram 40 homens que saíram da região para lutar a favor da Independência da Bahia, em 1823. Entre eles estavam o Padre José Maria Brayner e o seminarista Manoel Martins Valverde.
Todos os homens se encontram no Mercado Municipal de Pedrão
(foto: Landisvalth Lima)
Enquanto eu fotografava a cidade, minha tia, auxiliada por Ana Dalva, calmamente tentava descobrir com velhos moradores nomes, locais e causos, todos guardados na memória dos seus apenas 7 anos. É que minha tia visitou Pedrão ao lado do pai. Conheceu a tia Ercília, visitou o alambique das Gamelas. Ninguém mais se lembrava de ninguém, nem mesmo de Benedito de Magalhães, patriarca que, ao lado da família Valverde, dominava politicamente o Pedrão no final do século 19 e primeiras décadas do século 20. Meu avô nasceu no Pedrão em 1901. Foi para Serrinha em 1920 e sempre voltava à terra natal para visitar a mãe. O pai, Benedito Magalhães, morreu logo que meu avô nasceu, sem receber o sobrenome pomposo. Era filho de quintal.
A Igreja do Sagrado Coração de Jesus (foto: L. Lima)
Minha tia não queria acreditar que não havia mais vestígios dos seus antepassados. Não há mais nada. Só nomes e imagens na cabeça dos mais velhos. Um senhor, perto dos seus 90 anos, dizia que não havia mais nada. No lugar do alambique das Gamelas hoje era pasto. Todos foram embora para Feira de Santana, Salvador, São Paulo, Pará... Fim dos engenhos, dos alambiques, da rapadura doce e farta. Fim de uma era. Mas minha tia não se conforma de não se guardar nada, nenhuma lembrança. Os comuns estão fadados ao esquecimento. Não virarão nem mesmo nome de rua ou povoado. Até mesmo o local onde ela nasceu, fazenda Sapateiro, hoje também é pasto. Na saída fomos até o povoado de Lustosa, distrito de Teodoro Sampaio, às margens da BR 101. Lá nos indicaram a possibilidade de encontramos alguma informação. Mais uma vez, nada!  
Missão cumprida. (foto: Landisvalth Lima)
Perdemos o dia? Não. Minha tia, que se locomove com dificuldades, até surpreendeu a todos o tanto que andou, auxiliada por um pequeno cajado e amparada sempre por Ana Dalva, minha esposa. Senti que seria melhor se encontrássemos algo, mas pior seria se não fôssemos. Visitamos a igreja. Oramos pelos que se foram e pelos que ainda virão. Encontrar o passado é uma dádiva, mesmo que não o repitamos. Não o encontrar é reflexo da nossa luta pela sobrevivência num país sem memória. Mas o passado está lá na pele enrugada, nos cabelos brancos, no olhar turvo, nas pálpebras cansadas, no suor do esforço, nas imagens da memória. Dia 12 de julho, Pedrão fará 57 anos de emancipação. Ninguém se lembrará dos que lutaram para que a cidade estivesse onde hoje está. Também não se lembrarão de uma menina e de uma mulher que visitou o local aos 7 e aos 86 anos, mas tia Dejinha foi ao Pedrão.