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domingo, 13 de maio de 2018

A garota do veio do Timor-Leste

Com ajuda do Rotary Internacional, Nadya Andrade Filipe veio ao Brasil para aprimorar o Português e realizar o sonho de ser médica
Nadya Andrade Filipe veio do Timor-Leste e estuda no Colégio do Salvador, em Aracaju-Se.
(foto-montagem: Landisvalth Lima)
O nome dela é Nadya Andrade Filipe, estudante do Colégio do Salvador, em Aracaju. Ela veio do outro lado do mundo, do último país a ter a Língua Portuguesa como oficial: O Timor-Leste. Nadya veio para o Brasil graças a um intercâmbio promovido pelo Rotary Internacional. Todos os anos, mais de 8.000 jovens viajam para países diferentes, patrocinados por Rotary Clubs, com o objetivo de estreitar os laços de amizade e fraternidade entre as diversas nações em todo o mundo. Nadya foi uma de três selecionados o ano passado e veio para a cidade de Aracaju, em Sergipe. Ela está matriculada no 3º ano do Ensino Médio do Colégio do Salvador, mas já concluiu os estudos medianos em Dili, capital do Timor-Leste, no colégio Santa Madalena de Canossa. Os outros dois estudantes estão em São Paulo.
O país de onde veio Nadya tem nome pleonástico. Timor vem do indonésio timur, que significa leste. O nome foi aportuguesado para Timor e acabou ficando Timor-Leste. Em tétum, idioma mais falado por lá, o nome do país é Timor Lorosa'e, este segundo nome também significa leste. Situado na ilha de Timor, no continente asiático, o território montanhoso do Timor-Leste só possui fronteira terrestre com a Indonésia. Ex-colônia portuguesa, o país é o único da Ásia que tem o Português como idioma oficial, apesar de ser falado por apenas 10% da população nacional. Com isso, a nação é uma das integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Nadya Filipe está com 17 anos. Ela nasceu quando o país já havia se livrado do domínio indonésio. O Timor-Leste se tornou independente em 2002. Essa conquista ocorreu após vários anos de lutas contra os colonizadores. Os portugueses foram os primeiros a ocupar o território, em 1859, realizando a exploração de madeiras nobres, fato que provocou a destruição da mata local. Entre os anos de 1975 a 1999, a Indonésia invadiu o Timor Leste, iniciando uma onda de terror naquele país. O ensino do idioma local, o tétum, foi proibido, execuções em massa foram realizadas e ocorreu a destruição da infraestrutura. Nadya estava com 1 ano de idade quando o país conquistou sua independência, mas ainda sofreu quando implodiu a guerra civil pelo domínio político do país. Com seis anos, Nadya fugiu com a família para uma ilha.
Enquanto Nadya estuda aqui no Brasil, Timor-Leste vive o seu momento democrático. Ocorreram eleições antecipadas esta semana e a Aliança de Mudança para o Progresso (AMP) está consolidando uma maioria absoluta, com 49,33% dos votos. A contagem dos boletins das eleições antecipadas deste sábado (12) em Timor-Leste está na reta final, já com 96% dos votos contados e deve legitimar a liderança de Xanana Gusmão, um dos nomes da luta pela independência. Na manhã deste domingo, a coligação AMP, liderada por Xanana, tinha 285.534 votos, à frente da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), com 198.745 votos, ou seja, 34,33% do total. Em terceiro lugar, surge o Partido Democrático (PD) com 45.884 votos (7,93%) e depois a Frente de Desenvolvimento Democrático (FDD), com 32.706 votos (5,65%).
Aqui no Brasil, Nadya se prepara para fazer um curso de nível superior. Ela informa que lá existem vários cursos, desde Medicina até Letras-Português. A dificuldade relatada por ela é que, embora o Português seja ensinado desde a pré-escola, nos cursos superiores os professores falam o Tétum, em alguns casos até o inglês. Nadya veio ao Brasil não só para aprimorar, mas também para conhecer um pouco do mundo e contribuir para a melhoria de sua comunidade. Por isso ela quer fazer Medicina. Embora já tenha sua vaga reservada para o curso de engenharia mecânica, ela acha que prestará melhor serviço como médica.
Nadya Andrade Filipe é filha de um empresário da construção civil, Francisco Honório. Sua mãe é funcionária de um departamento de importação e exportação, uma aduana, Adelina Andrade. Curioso é a quantidade de idiomas que eles precisam falar no Timor. Adelina, Francisco, Nadya e sua irmã mais nova, Michela, falam quatro idiomas, o Português, o Tétum, o Indonésio e o Inglês. Quando voltar em janeiro de 2019 para a sua cidade natal, Dili, capital do Timor, Nadya terá uma extraordinária bagagem de conhecimentos. Ela diz que guardará para sempre coisas da nossa cultura, como o nosso forró, e tem uma definição para o povo sergipano: “pessoas lindas, simpáticas e engraçadas”. Ela está esperando a época certa para aprender a dançar forró. Não faltarão professores.
Lá no Timor-Leste também existe um exame nacional do ensino médio. Do resultado que obteve no ano passado, Nadya está apta a cursar Engenharia Mecânica. Como deseja Medicina, Nadya fará novamente e, desta vez, acredita que conseguirá. Apesar de gostar muito de Aracaju, a garota do Timor fala de Dili com emoção. Diz que a cidade foi reconstruída e hoje tem shoppings, largas avenidas e uma população que chega a 280 mil habitantes, sendo a maior cidade do país. O Timor-Leste voltou a ter uma população crescente, inclusive com a volta de muitos que tiveram que abandonar a ilha. Hoje, são 1 milhão e 300 mil habitantes, 500 mil a mais que há 19 anos. No país há três canais de televisão com noticiário em Tétum e Português, mas não há exibição de novelas brasileiras. Lá, os folhetins eletrônicos são de Portugal ou da Indonésia.