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                                                Landisvalth Lima O Dr. Antônio Carlos falando aos professores (foto: Landisvalth Lima) ...

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Juazeiro do Padre Cícero

Juazeiro do Norte é a cidade mais populosa da região do Cariri (foto: Landisvalth Lima)
É difícil escrever sobre algo que todos conhecem. Então, vou aqui nesta reportagem fazer um relato do ponto de vista pessoal. E o tema é a cidade de Juazeiro do Norte, no Estado do Ceará. Nos dois dias em que lá passei, tentei entender quais as coisas que fizeram de Juazeiro do Norte algo tão grande. Os números são gigantescos para uma cidade localizada distante de todos os principais grandes centros do Nordeste. Sua população emplaca 270 mil habitantes, em exatos 248 km2, ou seja, 1089 habitantes por Km quadrado. Para servir de base, Heliópolis tem 324 km2, com 14 mil habitantes, ou 44 habitantes por km quadrado. Se somarmos os municípios vizinhos, Crato, Barbalha, Caririaçu e Missão Velha, são mais de 500 mil habitantes num espaço curto, quase que completamente urbanizado, formando a Região Metropolitana do Cariri. A metrópole tem de tudo e não depende da capital Fortaleza, a não ser as questões relacionadas ao governo.
Estátua de Padre Cícero no Horto (foto: Landisvalth Lima)
Como nosso foco nesta reportagem é Juazeiro do Norte, é impossível não falar de Padre Cícero Romão Batista. Quando este saiu do Crato, onde nasceu, e rezou uma Missa do Galo em 1871, selou sua ligação sanguínea com o lugarejo, chamado naquele tempo de Tabuleiro Grande. No ano seguinte o padre se mudou com a família para o local e nunca mais saiu de lá, nem mesmo quando foi proibido de celebrar missas. O município maior da região era Crato. Só que em 1910, Juazeiro já lutava por sua independência por ser maior que Crato. Vem daí uma rivalidade entre as duas cidades, hoje já bem menos perceptível. Mas Padre Cícero não foi o único a lutar pela emancipação de Juazeiro. Padre Alencar Peixoto e José Marrocos, este primo de Padre Cícero, fundaram o jornal O Rebate, em 1909, que pregava a independência da municipalidade. Em 22 de julho de 1911 nasce Joazeiro, que posteriormente passa a se chamar Juazeiro do Norte. Padre Cícero é empossado como seu primeiro prefeito.
Casarão de Padre Cícero na Colina do Horto
(foto: Landisvalth Lima)
Por onde quer que você ande na atual Juazeiro do Norte há a figura de Padre Cícero. Parece ainda vivo. Virou produto de exportação do município. Ruas, lojas, bairros, avenidas, praças, rodovias, povoados levam seu nome. É incrível imaginar que este homem foi impedido de pregar pela Igreja católica. E tudo começou por uma hóstia que virava sangue na boca da Beata Maria Araújo. Foi milagre ou uma farsa? A dúvida mobilizou a igreja dividida. Uns diziam que o padre era abençoado e outros afirmavam que era um farsante. Uma primeira comissão disse que o fenômeno não poderia ser explicado, mas os adversários de Padre Cícero aproveitaram o fato de José Marrocos ser químico, e que vivia sempre ao lado da Beata, para tentar qualificar o milagre como farsa e afastaram o padre das pregações. Marrocos morreu em 1910, tentando reabilitar Padre Cícero, a Beata Maria Araújo e ver Tabuleiro Grande independente. Não conseguiu nenhum dos dois.
Igreja do Bom Jesus do Horto (foto: Landisvalth Lima)
Mas o povo é santo e santificaram Padre Cícero. Virou líder político e Juazeiro do Norte cresceu com ele. Enquanto a igreja perseguia o Padre, ele lutava pela reabilitação. Chegou a ir a Roma conversar com o Papa Leão XIII. Foi reabilitado, mas, ao chegar em Juazeiro do Norte, tudo mudou e até falavam em excomunhão, o que nunca chegou a ocorrer. José Marrocos Morre, vem a emancipação, o Padre Cícero vira prefeito. A história ganha o Brasil e as romarias começam. Todos os dias havia mais fieis na casa de Padre Cícero, na rua São José, onde hoje está instalado o museu Casa de Padre Cícero, que nas missas. E são as romarias que dão fama ao município e ao padre. Juazeiro do Norte ficou tão forte que chegou a derrubar um governador. Em 1913, Padre Cícero foi destituído do cargo pelo governador Marcos Franco Rabelo. Depois de liderar, com ajuda do médico baiano Floro Bartolomeu, a conhecida Sedição de Juazeiro, volta ao poder em 1914, quando Franco Rabelo foi deposto. Além de prefeito, Padre Cícero foi eleito vice-governador do Ceará, no Governo do General Benjamin Liberato Barroso.
Interior da Igreja N. Sª. das Dores (foto: Landisvalth Lima)
A partir dos anos de 1920, a força política de Padre Cícero diminui, talvez por opção dele mesmo, ao tempo em que aumenta o seu poder como homem santo. Floro Bartolomeu vira deputado federal e Padre Cícero chega a vice-governador pela segunda vez. Quando Floro Bartolomeu morre em 1926, padre Cícero é eleito deputado federal, mas não quer sair de Juazeiro para ir ao Rio de Janeiro. Não toma posse. É nesse período que as romarias ganham força. Estradas são abertas, linhas de ferro ampliadas e cada vez mais chegam romeiros de todo o Nordeste. O padre já está bem velho e doente, mas era figura obrigatória nas inaugurações, recepções a autoridades, visitas de ministros, escritores e autoridades do mundo inteiro. Já era uma figura internacional e Juazeiro do Norte motivo de pesquisa e literatura. Mesmo assim, a igreja não perdoava padre Cícero. Apesar disso, dono de um bom patrimônio, faz testamento e deixa tudo para a Diocese do Crato e para os Padres Salesianos de Juazeiro do Norte. Padre Cícero morre em 1934, aos 90 anos.
Memorial Padre Cícero (foto: Landisvalth Lima)
Em 2015, o Papa Francisco promoveu a reconciliação da Igreja Católica com Padre Cícero, afirmando que suas pregações estavam no caminho correto da expansão da fé e, por isso, é hoje um santo popular. Tal reconciliação leva o povo a pensar na canonização do padre pela igreja, coisa que deve demorar mais alguns anos. Os religiosos sempre demoraram a entender os seus equívocos. Hoje, Juazeiro do Norte recebe 2 milhões e meio de fieis todos os anos e Padre Cícero é santo apenas popular. Imaginem quando for oficializado. Se bem que a oficialização é mais para a igreja limpar sua barra com o povo. Verdade seja dita, Padre Cicero queria esta reconciliação antes de morrer. Foi isso que ele pensou ao deixar seus bens para a Diocese, mas seus companheiros de batina estavam surdos.
O túmulo está na Capela do Perpétuo Socorro
(foto: Landisvalth Lima)
Visitar a cidade e não mergulhar nos seus museus para entender toda esta história é perder tempo. Sem Padre Cícero, Juazeiro é uma cidade com comércio intenso, boas pousadas, comida barata e povo hospitaleiro. O ponto mais visitado, é claro, é a estátua de Padre Cícero na colina do Horto. Ao lado da estátua fica o Casarão do Padre Cícero. Não indo na romaria do dia 2 de novembro, há estacionamento de sobra. Na mesma colina do Horto, cerca de 300 metros ao fundo da estátua, estão construindo a igreja que Padre Cícero sempre desejou e não conseguiu construir: A Igreja do Horto. Ele chegou mesmo a iniciar as obras, mas findaram em ruínas. Hoje, a construção chegou a 50% da sua capacidade. Com a crise, o dinheiro da fé é o primeiro que desaparece, nada que 200 mil reais não possam resolver. A arquitetura é espetacular e seu custo pode chegar aos 400 mil reais. 
Mas não é só isso. Há o Memorial Padre Cícero com vasta documentação, inclusive com o testamento do padre. A igreja Nossa Senhora das Dores, criada também pelo Padre Cícero; o santuário dos Salesianos, a capela onde foi enterrado, ao lado do cemitério principal da cidade, exatamente em frente ao memorial e mais tudo o que você possa desfrutar de uma cidade moderna, desde shoppings até VLT. Mas onde quer que você vá, lá está o Padre Cícero Romão Batista. Não é sem nexo que o povo quer mudar o nome da cidade para Juazeiro de Padre Cícero. Tem lógica.

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