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O encontro que virou show

Sandro Becker animou o encontro dos professores na casa de Álvaro (foto: Landisvalth Lima) A ideia dos professores do Colégio do Sa...

Novidade

domingo, 21 de maio de 2017

O encontro que virou show

Sandro Becker animou o encontro dos professores na casa de Álvaro (foto: Landisvalth Lima)

A ideia dos professores do Colégio do Salvador para um encontro deste de espantar o estresse virou um inesperado show. O fato se deu na casa do professor Álvaro Azevedo, que leciona Física e, nas raras horas vagas, dá uma de percussionista explorando o seu carron. Para animar a festa, foram convidados especiais Elifas Santana, fabricante das mais famosas guitarras do Brasil, que tocou seu bandolim; Valério Badaró, no violão; Sid, sanfoneiro da banda Forró Traquino; Alan Kardec, no zabumba, e a presença inesperada do cantor, compositor e apresentador Sandro Becker. O quadro didático e de plateia ficou a cargo deste professor e blogueiro, Landisvalth Lima, ladeado de Mateus Melo (Matemática), Austeclínio Dantas (Matemática), José Joilton (História), todos acompanhados devidamente de suas esposas. Também marcaram presença Ana Paula Oliveira (Português), Suzana Melo (Inglês) e o Coordenador do Ensino Fundamental do Colégio do Salvador, Magno Queirós, e sua esposa. O quadro se completa com o produtor Marcos Girino, seu amigo Cassio Sampaio e a vereadora por Heliópolis, na Bahia, Ana Dalva, da Rede Sustentabilidade.
Sandro Becker 
Sandro Becker (foto: Landisvalth Lima)
Quem não se lembra dos estrondosos sucessos das músicas de duplo sentido que fizeram sucesso nos anos de 1980? É difícil para alguém que viveu esta época não pensar no refrão “Julieta-tá tá me esperando”. Sandro Becker foi um astro desta época, disputando com Luís Caldas os primeiros lugares nas paradas de sucesso. Hoje, o terceiro filho mais ilustre de União dos Palmares, os outros dois são Zumbi dos Palmares e o poeta Jorge de Lima, nascido no distrito de Rocha Cavalcante, continua fazendo forró de duplo sentido, mas mesclado com o forró clássico de Luís Gonzaga, que ele tem orgulho de dizer ter sido o incentivador de sua carreira.
O alagoano Sandro Becker tem nome oficial de Emanoel do Vale Trindade. Seu pai é sergipano de Ilha das Flores, um comerciante evangélico que completa este ano a marca dos 101 anos.  Sandro, embora não pareça, está completando 62 anos e mora em Natal, no Rio Grande do Norte, onde apresenta programa na televisão e é empresário. Becker aprendeu a tocar vários instrumentos musicais e iniciou sua carreira artística na capital alagoana, em 1972. Numa rádio local, fazia sucesso com o personagem Coronel Zé Lotero em programa humorístico. O sucesso foi levado para o Rio de Janeiro quatro anos depois, na rádio Metropolitana.
Professor Álvaro, o anfitrião
(foto: Landisvalth Lima)
O primeiro disco foi gravado somente em 1979, denominado Sandro Becker, de Beethoven a Soriano. Sete anos depois veio o grande sucesso Julieta. Mas não ficou só por aí: O Gato Tico, O Kiko e A Velha Debaixo da Cama foram outros grandes sucessos. Este ano, Becker grava o seu 38º trabalho, denominado É forro pro ano inteiro. Como compositor, assinou canções como  Viagem da Carmelita, Cabo Velho e Quiabo Gigante. Seu produtor Marcos Girino, há 22 anos no ramo, afirma não ter dúvida da continuidade do sucesso de Sandro Becker. Ele aposta na diminuição da corrupção, do superfaturamento e das festas juninas de grande porte, com atrações caríssimas, que não trazem nenhum benefício aos municípios. Para ele, o São João tradicional é o melhor caminho. “É o melhor investimento cultural, além de sobrar a grana para o essencial: educação.” disse.
Elifas Santana
Elifas Santana (foto: Landisvalth Lima)
Um luthier é um profissional que trabalha na construção, manutenção e aperfeiçoamento de instrumentos musicais, notadamente instrumentos de cordas. É isso que faz o Elifas Santana, e o faz muito bem. Sua lutieria em Aracaju tem fila com pedidos dos mais importantes músicos do país. A fama dele é tão grande que chegou ao ponto de, no Carnaval baiano 2013, (O tema foi a Guitarra Baiana) a pedido da Família Macedo, Elifas construiu uma Guitarra Baiana estilizada, com os desenhos das Bandeiras do Brasil, da Bahia e de todos os estados da federação, que foi oferecida à Presidente Dilma Rousseff.
Para desempenhar cada vez melhor o seu trabalho, vendeu a estrutura gigante da sua Guitarra Brasil e está montando uma bem menor e mais eficiente. “Música para mim é alma” e é com essa mentalidade que ele dedica todo o tempo disponível, quando não está no seu emprego público, ao estudo de aprimoramento de cada instrumento musical. Elifas guarda com orgulho a 1ª e a 2ª guitarras de Armandinho e se orgulha de ter aprendido muito com o lendário Osmar Macedo. No encontro deste sábado na casa do professor Álvaro, presenteou a todos com uma versão curta de Bolero, de Ravel. Perguntado se já dominava o instrumento que tocava, um bandolim, ele disse humildemente: “Sou um aprendiz.”.
Valério Badaró
Valério Badaró (foto: Landisvalth Lima)
O violonista Carlos Valério Badaró é funcionário da Cohidro e, nas horas vagas, toca violão. Nunca viveu profissionalmente da música, mas toca desde os 18 anos. Hoje, com 50, orgulha-se de tocar com profissionais do porte de Caribé e Júnior do Banco do Brasil. Deixa claro, porém, que música para ele é diversão.
Sid e Forró Traquino
Sid e seu Forró Traquino (foto: landisvalth Lima)
Ele é empresário do ramo de cimento e começou a fazer música por diversão. Aprendeu a tocar sanfona e conheceu na infância o Sandro Becker. Daí em diante não quis mais parar. Hoje diverte pessoas com a banda Forró Traquino e admite que já é uma profissão. Sid, inseparável de sua sanfona Leticce, lançou o seu 1º cd Sid & Forró Traquino, com 15 composições e as participações especiais de Mestrinho, Sandro Becker, Nurimar, Adriana e Amorosa. Há músicas de Sandro Becker, Dogival Dantas, Accioly Neto e outros.
Os aniversariantes
Para completar o sábado com chave de ouro, dois professores aniversariavam: Mateus Melo e Magno Queirós. Suas esposas prontamente providenciaram um bolo, bonitas palavras, duas velas, que não conseguiam ficar acesas devido ao forte vento, e muita gratidão. Assim o dia ficou noite e o encontro já tinha se transformado em um belo espetáculo da vida. 

Para ver mais votos do encontro, dê um clique AQUI.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O que você precisa saber sobre a delação da J&F

Joesley Batista entrega Michel Temer em delação (foto: Diário da Amazônia)
1 – Joesley Batista gastou 30 milhões de reais para eleger Eduardo Cunha presidente da Câmara dos Deputados.
2 – Não dá para defender Michel Temer. Ele recebeu o dono da maior empresa de carne do planeta sem registro em agenda oficial. O Joesley entrou pela garagem e Temer ainda perguntou se alguém o teria visto.
3 – Temer deixou claro a Joesley Batista que poderia ajudar o Eduardo Cunha no STF com dois ministros. Há pelo menos dois ministros sob suspeita no Supremo.
4 – Todos os partidos que se coligaram com o PT em 2014 receberam propina, inclusive o próprio PMDB. Só para o partido de Temer foram algo em torno de 40 milhões.
5 – As propinas da JBS para Lula e Dilma somam 150 milhões. Boa parte deste dinheiro foi depositado em contas no exterior. Agora o PT mudou o discurso: as provas de Joesley Batista não são mais irrefutáveis. É tudo mentira!
6 – Os donos da J&F dizem que, ao longo dos governos Lula/Dilma/Temer, os valores em propina ultrapassam a cifra de 400 milhões. Ou seja, daria para construir 400 colégios do tamanho do José Dantas de Souza.
7 – O que a Justiça brasileira não pode fazer é não dar uma sentença, uma condenação, uma pena para os dois irmãos da J&F. A procuradoria exige multa de algo em torno de 11 bilhões de reais, mas é muito pouco. Tem que haver uma pena. Os caras cresceram na propina e via empréstimos do BNDES. Precisam ser punidos. Dinheiro só não resolve.
8 – O senador Aécio Neves estava empenhado em acabar a punição ao uso de caixa 2 em campanha. Contaria com apoios de ilustres petistas. A ideia era uma só: corruptos unidos jamais serão vencidos.
9 – O presidente Michel Temer entrou com um Habeas Corpus contra as decisões do Ministro Fachin nesta sexta-feira (19). Pelo sorteio eletrônico, o nome do ministro que vai julgar o HC será o Barroso. Até em sorteio Temer está dando azar.
10 – Foi o deputado João Bacelar quem conversou com Joesley Batista e solicitou a compra de 30 deputados para votar contra o impeachment de Dilma. Cada deputado receberia 5 milhões. O dono da JBS disse que poderia ajudar com a compra de 5 deputados a 3 milhões. Apesar disso, teve deputado que recebeu e votou a favor. 

O PT não tem jeito!

Mesmo se esfacelando, o PT não consegue reconhecer seus erros (foto: blog O Cachete)
O PT não tem jeito! A falta de vergonha dos seus dirigentes chega a ser zombaria. Tiveram coragem de soltar uma nota sobre os depoimentos de Joesley Batista. Vejam o que disseram:
“As denúncias contra o usurpador Michel Temer e vários de seus aliados, incluindo o senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, desmascaram em definitivo o bloco golpista.
Provas materiais, irrefutáveis, comprovam a natureza corrupta da coalizão de forças que se apossou do poder e vem impondo ao País uma agenda de reformas antipopulares, antinacionais e antidemocráticas”.

Agora eu quero saber o que vão dizer quando o restante do depoimento do dono da JBS, que detalha inclusive compra de deputados para evitar o impeachment de Dilma. Mais, revela como distribuía propina ao PT, Lula e companhia, sob as bênçãos de gordos financiamentos do BNDES. Meu Deus! Quanta cara de pau. Não vejo o dia sagrado em que eu possa assistir a uma leva destes calhordas na cadeia abraçados! Lula, Dilma, Aécio, Temer, Cunha, Dirceu e tantos outros, apontando um o dedo sujo para o outro dizendo: “A culpa foi sua, golpista!”

quarta-feira, 17 de maio de 2017

O fim de uma era!

Michel Temer não reúne mais condições de governar o Brasil
       Não há mais nada que possa ser feito. Depois do que gravou o dono da JBS, se ainda houver um pouco de dignidade, é hora do presidente Michel Temer sair de mansinho. Verdade seja dita: 54 milhões de eleitores foram frustrados ao votar na chapa PT-PMDB e perceberem o mar de corrupção e o infecto jogo de poder. Se insistir em continuar, cabe ao TSE cassar de uma vez toda a composição que enganou os brasileiros em 2014. Não haverá nem mesmo ambiente para as necessárias reformas. Só um governo eleito poderá convocar o povo e promover as necessárias correções. É hora de limpar a casa. Não adianta jogar apenas desinfetante. O deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) protocolou na noite desta quarta-feira, 17, na Câmara, novo pedido de impeachment do presidente Michel Temer por crime de responsabilidade. O pedido é baseado na gravação que teria sido feita pelo empresário Joesly Batista, dono da JBS, com Temer dando aval para “compra de silêncio” do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A gravação foi divulgada mais cedo pelo jornal O Globo

A Pedra do Reino e o Mito do Sebastianismo

A Pedra do Reino da Serra do Catolé (foto: Landisvalth Lima)

Numa reportagem do UOL, assinada pelo jornalista Marcelo Testoni, denominada “Brasil, 1838: Sacrifícios humanos”, há todo um histórico detalhado, que passamos aqui a reproduzir, sobre uma seita no sertão de Pernambuco, mais precisamente no município de São José do Belmonte, na Serra do catolé, divisa com a Paraíba, que brutalizava pessoas para trazer de volta Dom Sebastião. O episódio foi retratado em várias obras da literatura brasileira, como A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, e Pedra Bonita, de José Lins do Rego. Estive no local há alguns anos e resgato aqui este fenômeno esquecido por vários historiadores. Vamos à reportagem de Marcelo.
No dia 24 de junho de 1578, um Exército de 24 mil portugueses, comandado pelo seu rei dom Sebastião I, partiu de Lisboa e após quase um mês navegando pelo Atlântico em 847 embarcações chegou a Tânger, no Marrocos. Dali marchou por sete dias até a cidade de Alcácer-Quibir. O objetivo era atacar, com seus cavaleiros, lanças, espadas, arcabuzes e canhões, o rei marroquino Abd al-Malik. A vitória mataria dois coelhos: afastaria as ameaças dos muçulmanos ao litoral português e o país seria o protagonista de um processo de cristianização e colonização do norte da África.
Mas o desastre foi total para os portugueses. Abd al-Malik também tinha cavaleiros, lanças, espadas, arcabuzes e canhões. E a vantagem de um Exército de 60 mil homens. Três marroquinos para cada português. Metade do Exército lusitano foi morto na batalha e a outra metade, presa.
O corpo de dom Sebastião nunca seria encontrado. Aos 24 anos, o rei não deixou herdeiro ao trono e Portugal seria governado pela Espanha por 60 anos. Do fim misterioso de dom Sebastião surgiu o sebastianismo, a crença mística de que ele voltaria para afastar o domínio estrangeiro ou para livrar dos seus opressores os pobres e infelizes.
O mais popular divulgador do sebastianismo foi o sapateiro da vila portuguesa de Trancoso Gonçalo Annes Bandarra, que previu, em poemas, a volta de dom Sebastião,“o Desejado”.Suas Trovas fizeram enorme sucesso. Foram proibidas pela Inquisição, mas continuaram circulando clandestinamente por décadas, mesmo após sua morte. A lenda se espalhou por Portugal e, 260 anos mais tarde, tornou-se realidade no alto de uma montanha próxima à cidade de São José do Belmonte, sertão de Pernambuco, transformando-se em um dos episódios mais bizarros e sinistros da história brasileira.
Primeiro Reinado
Tudo começou em 1838, na Pedra Bonita (hoje, Pedra do Reino) – um platô encimado por dois rochedos paralelos, cada um com 30 m de altura –, quando João Antônio Vieira dos Santos começou a abordar os habitantes mostrando-lhes duas pepitas, as quais ele dizia serem preciosas. João Antônio afirmava que as havia conseguido graças ao rei dom Sebastião, que o conduzia todos os dias em sonho a seu esconderijo.
O rei português ainda lhe teria indicado que o desencanto e a revelação de seu reino estariam próximos e, assim que isso acontecesse, ele retornaria ao mundo como o Messias. Para dar fundamento, digamos, acadêmico a seus argumentos, o profeta levava consigo, além das pedrinhas, os textos de As Trovas do Bandarra, que tanto sucesso haviam feito em Portugal.“Esse fato demonstra a perspicácia do falso profeta, que, conhecendo o nível de esclarecimento de seus ouvintes, apropriou-se de uma narrativa de convencimento”, diz Marcio Honorio de Godoy, da PUC-SP e autor de O Desejado e o Encoberto, sobre o sebastianismo.
Moradores de sítios vizinhos começaram a aderir à crença e visitar o complexo rochoso encantado, onde dom Sebastião dormia, segundo suas pregações. Com a popularidade crescendo, o profeta foi coroado rei de Pedra Bonita, cargo provisório enquanto dom Sebastião não despertava. Mas a agitação atraiu os olhares das autoridades.
O movimento provocava o esvaziamento da mão de obra rural e disseminava uma seita pagã. Enfim, um caso de polícia e de Igreja. O padre Francisco José Correia, respeitado na região, foi acionado. “O embusteiro João Antônio então se apresentou ao sacerdote, arrependeu-se de sua conduta e devolveu-lhe as falsas pedras”, conta Belarmino de Souza Neto, historiador e autor de Flores do Pajeú: História e Tradições.
O que deveria ser o fim do sebastianismo sertanejo gerou uma crença ainda mais fanática e perigosa. João Antônio assumiu a farsa e saiu da cidade, mas antes passou a coroa para o cunhado João Ferreira. O segundo rei de Pedra Bonita também dizia ter visões de dom Sebastião e intensificou a divulgação da profecia. Carismático, ganhou muita popularidade e conseguiu aumentar o número de seguidores para 300. Eles o chamavam de “Sua Santidade El-Rei” e beijavam-lhe os pés. Decidiu estabelecer sua corte ali mesmo, junto às duas grandes rochas de Pedra Bonita – local de rituais de desencantamento que permitiram ao outro rei, o desaparecido em Alcácer-Quibir, e que no momento dormia, voltar ao mundo real.
Segundo Reinado
São José do Belmonte (foto: Evandro Lira)
É nesse momento que as coisas começaram a degringolar. Ferreira decidiu estabelecer sua casa em um dos blocos de rocha. Nela, eram promovidos festejos e beberagens entre seus associados, que se drogavam com manacá e jurema, ervas com propriedades alucinógenas, para conseguir “entrar” no reino de dom Sebastião. Na segunda torre de pedra, foi escavado o santuário – que servia de refeitório e para os rituais de desvirginamento, nos quais, após cerimônias de casamento, as noivas eram oferecidas em primeira mão ao monarca.
O que o novo rei pregava foi registrado, em 1875, por Antônio Attico de Souza Leite, do Instituto Arqueológico da Província de Pernambuco. “Um iluminado ali congregou toda a população para o advento do reino encantado do rei dom Sebastião, que irromperia castigando, inexorável, a humanidade ingrata”, escreveu. O dia a dia dos sebastianistas era ocupado por rezas e cantorias. Na rotina não entravam a preocupação com vestimentas ou com a higiene. Também não se tomava o cuidado de cultivar vegetais ou criar animais. Caravanas de jagunços de confiança do rei eram despachadas para recolher doações ou saquear fazendas vizinhas e, se possível, buscar novos adeptos.
Ferreira tinha ideias próprias de quais seriam os rituais exigidos para promover o desencantamento de dom Sebastião. “Era necessário banhar as pedras e regar todo o campo vizinho com sangue dos velhos, dos moços, das crianças e dos irracionais”, registrou Antônio Attico.
A loucura começaria para valer na manhã de 14 de maio de 1838. Ferreira anunciou que, numa visão, dom Sebastião lhe garantira que o sangue dos seguidores o traria de volta. Durante três dias, os fiéis, embalados por gritos, danças hipnóticas, música e bebidas alcoólicas, mataram 30 crianças, 12 homens, 11 mulheres e 14 cães. Pais e mães traziam como oferendas partes do corpo dos filhos. Aos pés do rei, arrancavam orelhas, língua, dedos dos pés, das mãos ou genitais, relata Antônio Attico, baseado em testemunhas.
Os cadáveres amontoavam-se e eram colocados na base das duas pedras de maneira simétrica, separados por sexo, idade e “qualidade”, esta última determinada de acordo com o tipo de promessa e da entrega de entes queridos ao sacrifício que eles houvessem feito. Quem se recusava ao sacrifício era tido como infiel e desprezível. “Os mais fanáticos entendiam tal recusa como uma quebra na continuidade do ritual de desencanto”, afirma Honorio de Godoy.
Terceiro Reinado
A loucura assassina de Sua Santidade El-Rei fez surgir um terceiro personagem. Pedro Antônio Viera dos Santos, irmão do primeiro rei, João Antônio, resolveu frear o ritual. Tomou a palavra e fez um discurso carismático anunciando que ele também tinha uma mensagem de dom Sebastião para divulgar. “Ele anunciou que dom Sebastião lhe apareceu em uma visão cobrando o sangue do segundo rei para o desencantamento ser concluído”, afirma o historiador Belarmino de Souza.
Os fiéis apoiaram imediatamente a sugestão e começaram a gritar: “Viva El-Rei dom Sebastião! Viva nosso irmão Pedro Antônio!” Deposto do seu título e na condição de um simples súdito, João Ferreira, o amalucado messias, foi arrastado ao sacrifício. Seu crânio foi esmigalhado e o corpo amarrado, pés e mãos, ao tronco de duas árvores grossas. Ao vencedor, Pedro Antônio, foi passada a coroa. Era ele, agora, o terceiro regente de Pedra Bonita. Sua primeira medida foi decretar a suspensão imediata dos assassinatos.
 A Batalha Final
Mas tamanho horror não poderia escapar às autoridades. Enquanto no alto do morro a transição entre os dois reinados acontecia, as denúncias dos sacrifícios humanos chegavam ao conhecimento do major Manuel Pereira da Silva, autoridade militar de São José do Belmonte.
Um vaqueiro, José Gomes, fugido de Pedra Bonita, relatou as barbaridades. Curiosamente, o delator destacava a frustração dos integrantes por terem sacrificado inocentes em vão, já que dom Sebastião não havia desencantado.
O major partiu no dia seguinte rumo à Pedra Bonita. Liderava um grupo formado por dois de seus irmãos, Cypriano e Alexandre, e 26 soldados. Após um dia de caminhada, e ainda distante do local da seita, a caravana fez uma pausa embaixo de alguns umbuzeiros. A poucos metros do abrigo, no entanto, encontrou-se de frente com o novo rei dos sebastianistas, Pedro Antônio, acompanhado de um séquito numeroso de pessoas armadas com porretes e facões. O rei e sua corte haviam deixado Pedra Bonita fugindo do cheiro dos cadáveres insepultos. 
O encontro pegou os dois grupos de surpresa. Os militares, em campo aberto, pareciam em desvantagem diante dos sebastianistas. Mas estes estavam exaustos. Na batalha que se seguiu, o major ganhou a guerra, mas pagou caro pela vitória. O rei, Pedro Antônio, e 16 de seus seguidores foram mortos. Do lado dos militares, cinco vítimas fatais, inclusive os dois irmãos do major. Ali, debaixo dos umbuzeiros, terminava, em 17 de maio de 1840, o sangrento reinado dos sebastianistas da Pedra Bonita, sem que dom Sebastião acordasse para socorrê-los. O messianismo não se extinguira no imaginário brasileiro. Grupos semelhantes surgiram. Um dos maiores, no interior da Bahia, em 1896, foi liderado por Antônio Conselheiro e gerou a Guerra de Canudos. Hoje, na Padre do Reino, para não apagar da memória popular, há romarias no local e muita diversão, como foi possível ver no vídeo aqui postado. Para quem desejar conhecer um pouco da cidade de São José do Belmonte, veja o vídeo feito por Adelson Pereira.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Maltratando a estudantada

                                                            Landisvalth Lima
Os estudantes de Heliópolis precisam de sua república
Eu não queria tocar no assunto. Não mais gostaria de tratar de assuntos que envolvam a política na cidade de Heliópolis. Não vejo nenhum fruto. É mais perda de tempo. Há uma geração de políticos que vieram para continuar os mesmos erros dos de outrora. Mesmo que apareça um querendo fazer algo novo, diferente, tem dez no caminho atrapalhando e não querendo mudança nenhuma. Como os bons não têm força ou coragem para mandar a raça ruim para o inferno do ostracismo político, prefiro poupar-me de aborrecimentos. Entretanto, a causa é mais que justa e urgente.
De início, quero logo tirar o prefeito Ildinho como o culpado da história. Acho até que ele não está sabendo de nada. Há pessoas ao seu lado que funcionam como uma espécie de escudo e as coisas não chegam até a fonte. Como sei que o responsável pela resolução do problema é falastrão e só resolve as coisas sob pressão, vou abrir espaço aqui extraordinário, torcendo para que alguém passe o problema ao prefeito. Se depois disso nada acontecer, Ildinho não poderá dar uma de Lula.
A questão é sobre a Casa do Estudante de Heliópolis em Aracaju, parte integrante do programa de governo do prefeito reeleito. O primeiro semestre do ano letivo de 2017 começa agora no próximo dia 6 de junho. O apartamento, que foi alugado de forma terceirizada, desde o ano passado já não mais abriga os sem-república. São cerca de oito estudantes fazendo faculdade, muitos deles na Universidade Federal de Sergipe, sem ter onde morar e sem condições de bancar a moradia na capital sergipana. Ou seja, têm a inteligência, mas não têm as condições matérias mínimas para continuar os estudos. Pior é saber que tudo isso depende de apenas, no máximo, 800 reais, menos que um mísero salário mínimo.
Como não sou adepto da defesa intransigente de um ou de outro lado político, espero que resolvam a questão. E outra, não me venham com esta de pensar em troca. Há uma mania em Heliópolis de só se fazer algo com retorno político. Não se pode fazer nada para educação pensando em voto de estudante. Se estudante fosse grato a professor, há muitos profissionais da educação que já seriam presidente da república. Trata-se de um investimento obrigatório na melhoria da qualidade da população. Um dia desses, assisti a um médico salvar a vida de duas pessoas num pronto-socorro em Aracaju. O cirurgião tinha sido meu aluno no antigo Colégio Brasília. Valeu a pena ter sido seu professor. Não perdi meu tempo. Será que foi perda de tempo ter defendido tanto o nome de Ildinho?

domingo, 14 de maio de 2017

O velho X o novo velho

                                                                                       Landisvalth Lima
Nada de novo no front político em Poço Verde
Quem imaginava uma mudança substancial na política de Poço Verde vai ter que esperar nascer chifre em cabeça de galinha. Tudo está como dantes no quartel de Abrantes. É que política neste interiorzão de meu Deus é na base da cabrestada. De um lado, o prefeito Iggor Oliveira está agindo como o seu pai rejuvenescido fisicamente. A cabeça continua igual, administrando para os seus, sem ver Poço Verde no horizonte. Até a estrutura administrativa e a forma de agir politicamente não mudaram nadica de nada. Nem mesmo na oposição é possível deslumbrar algo de novo.
Dois fatos para ilustrar o que aqui afirmamos. Todos sabem que Alexandre Dias, do PSDC, foi eleito pela coligação que apoiou Iggor. Além disso, foi o mais votado. Por falta de juízo do prefeito eleito, ou por sei lá que bagulho, não quis apoiá-lo para chegar à presidência da Câmara de Vereadores. A oposição, ferida por deixar o poder, entregou o cetro legislativo a Alexandre. Até aí, tudo normal. Para se defender de futuras complicações, Alexandre Dias fez uma eleição antecipada dos dois últimos anos desta legislatura e, claro, ele novamente será o presidente até 2020. Consolidou-se como uma evidente pedra no sapato de Iggor e outra no seu tênis. O jogo é questionável, legal e distante de qualquer ética. Alexandre não foi o primeiro a fazer isso e acho que não será o último.
Mas o contra-ataque viria, como uma retribuição generosa de Iggor Oliveira. Rivan Francisco e João Ramalho foram sacados das suas respectivas secretarias e foram alçados para a Câmara, já que são suplentes. Por sua vez, o vereador Dii de Nilo foi para a pasta de Obras e Urbanismo e o vereador Gileno Alves vai para a pomposa secretaria de Desenvolvimento Rural Sustentável, Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Ufa! Pesada! A mensagem foi clara: Rivan e Ramalho botam para lá no parlatório e os vereadores se saem melhor na burocracia. Com minoria na Câmara, e com a presidência com a oposição, Iggor quer equilibrar o jogo, pelo menos de forma verbal. Ah! O futuro de Poço Verde? Isto é para depois, caso haja oportunidade.

Seria uma confissão?

Gilberto Carvalho: erro repetido (foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
       O castelo de mentiras de Lula está caindo. Depois de Mônica Moura e do tucanense João Santana, agora é a vez de Gilberto Carvalho. Falando à Folha de São Paulo, justificou por que  Lula se recusaria a conhecer a origem do dinheiro que bancava suas campanhas: "O candidato não pode fazer tudo. É claro que ele espera que ninguém fizesse bobagem". Gilberto admitiu a patacoada: Foi “um erro gravíssimo que nós cometemos. Nós seguimos um padrão que condenávamos". Na entrevista, Gilberto carvalho foi lembrado de que o PT já havia confessado o crime no mensalão, mas voltou a praticá-lo nas eleições seguintes. E ele completou: "Foi repetido. Infelizmente". Será que o PT agora vai baixar a cabeça, admitir o erro e tentar limpar a legenda? Não acreditamos porque a militância continua na internet teimando que o Lula é Jesus Cristo.

domingo, 30 de abril de 2017

Belchior viveu sua divina comédia humana

Belchior morreu de causas naturais
O cantor e compositor Belchior morreu neste sábado no Rio Grande do Sul, depois de praticamente desaparecer. Numa reportagem da revista Época, de 2013, de Marcelo Bortoloti, Belchior estava sendo procurado pela polícia e hospedado de favor na casa de fãs. Antes, em 2009, o programa Fantástico, da Rede Globo, encontrou o compositor no Uruguai, que havia prometido voltar. Compositor de clássicos como “Divina comédia humana”, “Apalo seco”, “Comentário a respeito de John”, “Paralelas” e tantos outros sucessos, Belchior foi a confirmação em vida de que nada é divino, nada é maravilhoso, nada é eterno, nada é misterioso, e que ele sempre foi um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de Sobral, no interior do Ceará.    
Mas a reviravolta acontece sempre por causa de uma mulher. O nome dela é Edna Prometheu, pseudônimo da produtora cultural Edna Assunção de Araújo, de 50 anos. Morena, de cabelos encaracolados e baixa estatura, não é uma mulher de beleza estonteante. Militante de organizações de extrema-esquerda, é definida por seus amigos como “idealista utópica”. No começo de 2005, ela estava em São Paulo, no ateliê do artista plástico cearense Aldemir Martins, já morto, quando entrou pela porta o músico Belchior. O cantor de “Paralelas” também pinta quadros e frequenta o ambiente artístico. Edna queria organizar uma exposição de Aldemir no Ceará. Belchior disse que tinha amigos por lá, poderia ajudar. Trocaram telefones.
Os dois acabaram organizando juntos a exposição em Fortaleza, naquele mesmo ano. Na volta, Edna ligou para um amigo e contou a novidade: “Estamos namorando”. A partir daí, a vida plácida de Belchior derrapou no trevo a 100 por hora, como diz a letra de “Paralelas”. Para ficar com Edna, ele abandonou a então mulher, Ângela, com quem estava casado havia 35 anos, mãe de dois dos quatro filhos que tem. Afastou-se dos amigos e foi gradativamente deixando de fazer shows, até sumir sem dar explicações, em 2009. “Essa figura nefasta está fazendo uma lavagem cerebral nele”, afirma Jackson Martins, ex-empresário de Belchior. “Depois dela, sua vida só andou para trás”, diz o artista plástico cearense Tota, amigo de Belchior.
O desaparecimento de Belchior, há nove anos, surpreendeu a todos, família e amigos. Ninguém poderia esperar tal atitude. Ele deixou para trás a agenda de shows e todo o patrimônio, incluindo roupas, documentos, quadros, automóveis e apartamento. O sumiço transformou Belchior  em figura cult. A pergunta “onde está Belchior?” ecoou na internet e teve até repercussão internacional. Surgiram blogs sobre o tema. Campanhas nas redes sociais pediram  a volta do músico. E apareceram montagens cômicas – “memes” – em que Belchior aparece em locais inusitados como a ilha do seriado Lost. Suas músicas no YouTube, que antes tinham 5 mil acessos diários, em 2013 batiam 500 mil.
O sucesso no mundo virtual não trouxe nenhum benefício para o Belchior de carne e osso. Em 2013, aos 67 anos, ele vivia escondido com Edna em Porto Alegre. Não podia sair em público, pois é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias. Uma devida à ex-mulher Ângela, com quem tem dois filhos já maiores de idade, e outra à mãe de uma filha de 19 anos que teve fora do casamento. Além das pensões, Belchior abandonou todos os demais compromissos e é cobrado na Justiça em processos que correm à revelia. O ex-secretário particular de Belchior, Célio Silva, ganhou um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão. Não há mais como recorrer. As contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha comprometidos. Sem dinheiro, ele já se abrigou numa instituição de caridade no Rio Grande do Sul e morou de favor na casa de fãs que nem conhecia.
O mais intrigante na espantosa história de Belchior é que ele aparentemente não agiu movido por depressão, dívidas ou golpe publicitário, como se pensou no princípio. A influência da mulher é apontada pela maioria dos amigos como o motivo do seu comportamento. Ainda assim, não há unanimidade. “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”, diz o artista plástico José Roberto Aguilar, de 76 anos, amigo do casal.
Belchior (foto: Gustavo Pellizzon)
Belchior nasceu numa família simples no interior do Ceará. Foi o mais bem-sucedido entre 23 irmãos. Estudou medicina na capital. Abandonou o curso depois de quatro anos, para ingressar na carreira artística. Estourou nos festivais na década de 1970 e compôs músicas com letras poderosas, como “A palo seco”. Seus sucessos foram gravados por Elis Regina, Jair Rodrigues e Roberto Carlos. Belchior é um artista com vasta cultura, domina cinco idiomas, conhece filosofia e gosta de física quântica. Até os anos 2000, lançava em média um disco por ano. “Ele era uma máquina, chegava a fazer três shows por noite. Era uma pessoa completamente dedicada à carreira”, diz o parceiro e ex-sócio Jorge Mello.
Tudo isso ficou para trás. O sumiço de Belchior lembra o caso do escritor russo Liev Tolstói. Aos 82 anos, ele abandonou tudo para viver como camponês. Tolstói teve um fim trágico – morreu de pneumonia depois de viajar na terceira classe de um trem durante o inverno soviético. Belchior, quanto mais se afasta da vida em sociedade, mais se afunda em dificuldades mundanas.
Depois que conheceu Edna, Belchior percorreu uma trajetória descendente em que, aos poucos, se despojou de todos os bens e obrigações. No final de 2006, ainda com a carreira aquecida, pediu que o empresário Jackson Martins parasse de agendar novos shows. Pretendia passar um tempo se dedicando à pintura e à tradução do poema Divina comédia, de Dante Alighieri, para uma linguagem popular. No início do ano seguinte, deixou o apartamento em que vivia com Ângela, mas continuou morando em São Paulo com Edna, num flat alugado. Desde então, a família diz não ter mais notícias dele. Belchior não era um marido muito presente, ficava até dois meses sem aparecer em casa. Teve duas filhas fora do casamento. Uma delas com uma fã que morava em São Carlos, no interior de São Paulo, com quem saiu uma única vez. A outra era fruto de um caso com uma estudante de psicologia no Ceará. Belchior pagava pensão alimentícia para a primeira. A família da segunda menina, hoje com 20 anos, não o acionou na Justiça.
As complicações começaram a aparecer em 2008. Deste ano data uma aparição de Belchior numa entrevista dada ao Jô Soares, na Globo. Foi nesta época que Ângela, a ex-esposa, cobrava na Justiça uma pensão mensal de R$ 7 mil. Belchior se recusou a pagar. Na época, deixou de pagar também a outra pensão. Seus amigos notaram uma diferença de comportamento. “Ele parecia estranho. Me ligou perguntando sobre amigos que não vemos há 30 anos, num tom de voz que não era o seu”, diz Jorge Mello. Em outubro daquele ano, abandonou um carro no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Belchior continuou em São Paulo até março de 2009, quando deixou o flat sem quitar os últimos meses de aluguel. Na garagem, ele largou um segundo carro, e em seu apartamento ficaram roupas, rascunhos de música, cartões de crédito e o passaporte. Belchior também abandonou tudo na casa alugada onde funcionava seu escritório: coleção de quadros, discos, documentos e o computador onde estava parte da tradução da Divina comédia, projeto que lhe consumira três anos. Seu secretário, Célio Silva, continuou abrindo o escritório, na esperança de que retornasse.
Belchior e Edna (Foto: Bruno Alencastro)
Belchior viajara com Edna para o Uruguai, onde descansava num vilarejo. Foi processado por Célio e por todos os credores que ficaram em São Paulo. Não se defendeu. Foi representado por defensores públicos até nos processos de pensão alimentícia. Como consequência, suas contas foram bloqueadas, e apareceram dois mandados de prisão contra ele, já que não pagar pensão é um crime passível de cadeia. “Como não tive contato com ele, a defesa ficou restrita a questões formais”, diz a defensora Claudia Tannuri, escolhida para defendê-lo no processo movido pela ex-mulher Ângela. Belchior nem sequer se importou com o destino de seus pertences. As roupas que estavam no flat foram doadas à caridade. A filha mais velha recolheu os documentos. Os carros foram levados para depósitos públicos. A dívida com os estacionamentos já ultrapassava seu valor. O proprietário do imóvel onde funcionava o escritório lacrou o lugar e recolheu os pertences. Seus quadros se perderam com a umidade.
Como na música “Divina comédia humana”, “em que nada é eterno”, Belchior e Edna perambularam durante todo esse período de hotel em hotel – várias vezes, sem pagar a conta. Amigos culpam Edna pela iniciativa. O primeiro hotel em que isso aconteceu foi o Gran Marquise, em Fortaleza. Os dois ficaram hospedados ali ainda em 2006. Saíram sem pagar dois meses de estadia, no valor de R$ 8 mil. Depois, repetiram a prática em pelo menos quatro locais. No Icaraí Praia Hotel, em Niterói, deixaram uma conta de R$ 4 mil. “Alguns funcionários tiveram de arcar com parte da dívida, já que permitiram que ele ficasse hospedado mais de uma semana sem pagar a conta”, diz o atual gerente, Germano Lopes. No Royal Jardins Boutique, em São Paulo, a conta pendurada foi de R$ 12 mil. “Eles deixaram um cheque caução, mas não tinha fundos”, diz Elly Shimasaki, gerente na ocasião.
O caso mais recente foi no hotel Cassino, na cidade de Artigas, no Uruguai, onde o casal se hospedou entre julho de 2011 e novembro de 2012. Os últimos meses ficaram sem pagamento, restando uma dívida de R$ 35 mil. Lá, Belchior deixou para trás roupas e um laptop. “É uma lástima que um artista brasileiro dessa importância tenha agido assim”, diz o gerente uruguaio Ricardo Rodrigues. O hotel entrou com uma queixa criminal contra o casal.
Nos últimos anos, Belchior se manteve à distância de qualquer atividade remunerada. Em 2009, quando o desaparecimento ganhou repercussão nacional, a montadora General Motors ofereceu um cachê milionário para ele aparecer num comercial. Belchior deveria dizer que, com o novo carro da GM, até ele voltava. Belchior recusou o convite e ficou bastante chateado com o teor da proposta. O empresário Jackson Martins diz que recebe constantes pedidos para shows, mas não consegue localizá-lo desde 2007. “Pago as dívidas dele se ele voltar”, diz. Outro empresário que trabalhou com Belchior por quase 30 anos, Hélio Rodrigues, diz que o desaparecimento fez aumentar o interesse do público. “Depois do escândalo, ele consegue lotar qualquer casa de espetáculo. Com dois shows em São Paulo, eliminaria as dívidas”, diz.
Hoje, a maior pendência de Belchior é o processo trabalhista ganho pelo secretário Célio, no valor de R$ 1 milhão. A causa está julgada. Um apartamento de propriedade do músico em São Paulo está em execução. A dívida da pensão para a ex-mulher Ângela soma cerca de R$ 300 mil. Mas cresce a cada dia, já que Belchior continua obrigado a pagar R$ 7 mil por mês. “O sumiço só agravou a situação dele. Se não tem dinheiro, deveria enfrentar juridicamente o processo, argumentando que não pode pagar”, diz Paulo Sato, advogado de Ângela. A pensão atrasada da filha que mora em São Carlos gira em torno de R$ 90 mil. As dívidas com hotéis cobradas na Justiça somam R$ 47 mil. Não são impagáveis, desde que Belchior volte a se apresentar.
A derradeira fonte de renda de Belchior eram os direitos autorais de suas músicas. Segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), de 2008 a 2013, foram depositados R$ 367 mil referentes à execução pública de suas obras. Parte do dinheiro ficou retida quando as contas bancárias foram bloqueadas. Desde então, Belchior não contou com nenhum outro tipo de renda.
Em janeiro de 2013, Edna e Belchior procuraram a Defensoria Pública em Porto Alegre. A história ganhou ingredientes ainda mais estranhos. Os dois alegavam que o bloqueio das contas e os mandados de prisão impediam que ele trabalhasse e voltasse a ganhar dinheiro para pagar as dívidas. Belchior aparentemente estava disposto a voltar. Mas o comportamento do casal era confuso. Edna falava desbragadamente, enquanto Belchior ficava quase sempre calado. “Durante um mês, me informei sobre os processos que tramitam em São Paulo. Fizemos um pedido judicial para a suspensão da execução, até que ele conseguisse se restabelecer. Nesse meio-tempo, Belchior sumiu”, diz a defensora pública Luciana Kern, que o atendeu.
Belchior estava há nove anos afastado de tudo
Nesse mesmo período, Edna ligou para o jornalista gaúcho Juremir Machado, que não conhecia. Disse que Belchior estava escondido na cidade e precisava de ajuda. Ela queria que Juremir os levasse à sede regional da TV Record para fazer uma denúncia delirante. Juremir notou algo de incomum no casal. Eles se escondiam atrás de pilastras e ficavam olhando a movimentação nas ruas antes de entrar em algum lugar, como se fossem seguidos. Na retransmissora da TV, Edna afirmou ter um dossiê contra a TV Globo. O programa Fantástico noticiara o desaparecimento de Belchior em 2009 e a fuga do hotel uruguaio, em 2012. “Ela dizia que Belchior era difamado pela Globo e queria justiça. Falou até que havia uma tentativa de matá-lo”, diz a jornalista Vânia Lain, que recebeu os dois. Eles disseram que voltariam na semana seguinte trazendo os documentos, mas desapareceram.
Em Porto Alegre, Belchior e Edna ficaram inicialmente hospedados num hotel simples no centro, pago com ajuda dos funcionários do Tribunal de Justiça, primeira porta em que o casal bateu quando chegou à capital gaúcha. Depois, foram abrigados no Centro Infanto-juvenil Luiz Itamar, instituição de caridade na região metropolitana. Dali, foram levados ao advogado Aramis Nacif, ex-desembargador do Estado, que poderia ajudar Belchior com os processos. “Ele dizia que um agente apareceria, mas nunca apareceu”, diz Nacif. Durante um mês, o casal ficou abrigado na casa de praia do filho dele. “Eles não tinham dinheiro algum. Edna apresentava um sentimento de perseguição muito grande, parecia ter algum distúrbio psicológico”, diz. Foi nesse momento que Belchior conheceu o advogado Jorge Cabral, na casa de quem se hospedou por quatro meses.
Cabral tomou um susto ao perceber que um músico importante como Belchior estava ali. E os convidou para ir a um sítio de sua propriedade, em Guaíba, local mais agradável. Belchior e Edna continuavam sem dinheiro. Nesse período, o advogado levou mantimentos, roupas, itens de higiene pessoal e até tintura para Belchior pintar os bigodes de preto.
No sítio de Cabral, Belchior não bebia nem comia carne vermelha. Passava os dias tomando chá, caminhando e cuidando das ovelhas. Fazia muitas anotações em papéis, que escondia numa pasta. Durante esse período, gastou duas canetas inteiras. Leu cerca de 40 livros. Não apresentava sinais de depressão. Parecia, segundo Cabral, alheio aos problemas que o cercavam. “Eu imaginava que ele era apenas um compositor nordestino, mas encontrei um artista plástico, um pensador, um filósofo”, diz Cabral. Ele pretende escrever um livro sobre a experiência.
Belchior só não gostava de falar sobre sua situação. Recusava-se a tocar violão e cantar. Edna impedia que ele fosse fotografado. O casal também não tomava nenhuma providência para resolver os problemas jurídicos. “A gente esperava que a situação se resolvesse, mas não acontecia nada. E aquilo não condizia com um homem lúcido, com memória fantástica, que fala várias línguas e tem uma quantidade enorme de músicas gravadas”, diz Jorge Cabral.
“Esse tempo que ele falou que daria na carreira já está longo demais. Só queremos notícias dele”, diz a irmã, Ângela Belchior. Belchior não apareceu nem no enterro da mãe, que morreu em 2011. Por telefone, a ex-mulher Ângela soa reticente. Não gosta de falar sobre um assunto tão delicado com a imprensa. Ela conta que, desde 2007, Belchior não entra em contato nem com os filhos. “Não entendo. Os empresários dele não entendem”, diz.
Em julho deste ano, Cabral pediu que o casal saísse, dado que Belchior e Edna não davam sinal de acabar com aquela situação de total dependência. Ele os deixou na porta da sede regional da União Brasileira de Compositores, com R$ 50 no bolso. Na União, Belchior tentou desbloquear o pagamento de seus direitos autorais, comprometido pelos processos na Justiça. Não conseguiu.
Belchior foi visto pela última vez na entrada do prédio, um edifício moderno num bairro de classe média de Porto Alegre, em frente a uma avenida bastante movimentada. Carregava uma pequena mala nas mãos e material de pintura debaixo do braço. Belchior – na belíssima letra de “Comentário a respeito de John”, ele cantava “eu prefiro andar sozinho” – estava, como sempre, ao lado de Edna.
O Fantástico encontrou o artista e a mulher na cidade de San Gregorio de Polanco, no Uruguai, em 2009. Na época, Belchior disse ao programa que vivia em São Paulo e estava no país "fazendo um trabalho muito especial". Também contou que estava compondo, traduzindo suas músicas para o espanhol e que pretendia lançar um disco com canções inéditas quando voltasse ao Brasil.
Sobre a repercussão de seu paradeiro, afirmou: "Eu me sinto imensamente feliz por me ver tão amado e requisitado. Tenho certeza que esse é um momento super bem-sucedido. O Brasil está comigo sempre, sempre estou voltando para o Brasil." Neste último sábado, 29 de abril, ele morreu em casa, na cidade de Santa Cruz do Sul (RS), aos 70 anos. A polícia informou que o artista morreu de causas naturais. O corpo deve ser levado para o Ceará, onde ocorrerá o sepultamento em Sobral, sua cidade natal, desejo do artista que compôs a Divina comédia humana, onde nada é eterno.

(A partir de reportagens da revista Época e do G1)

sábado, 29 de abril de 2017

PT, PMDB, PSDB, DEM e até o PSOL devolverão milhões a cofres públicos

Irregularidades com o dinheiro do Fundo Partidário atinge até o PSOL 
O pagamento será feito por conta de irregularidades nas prestações de contas de 2011, identificadas em pareceres da área técnica do tribunal.
O plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu na última quinta-feira (27) punir os três maiores partidos do Brasil: PT, PMDB e PSDB, por irregularidades nas prestações de contas de 2011, identificadas em pareceres da área técnica do tribunal. Outros cinco partidos também receberam sanção: DEM, PSL, PTC e os radicais defensores do socialismo PSOL e PSTU.
A maior punição foi a do PT, que teve suas contas reprovadas parcialmente, sendo condenado a retornar R$ 5,6 milhões aos cofres públicos, além de deixar de receber R$ 7,8 milhões referentes à cota de um mês do Fundo Partidário deste ano. Entre as principais irregularidades identificadas está o pagamento de empréstimos fraudulentos ligados à Ação Penal 470, conhecida como processo do Mensalão.
O PMDB teve suas contas aprovadas com ressalva e foi condenado a retornar R$ 762 mil aos cofres públicos. O partido foi punido, principalmente, por irregularidades na contratação de uma agência de publicidade e pelo pagamento de um advogado para defender um filiado em uma ação não relacionada à atividade partidária.
Já o PSDB, que também teve suas contas de 2011 desaprovadas, terá de devolver R$ 4 milhões ao erário. Além disso, o partido deixará de receber R$ 6,6 milhões do Fundo Partidário. O diretório tucano também deverá destinar R$ 2,1 milhões para o incentivo à participação de mulheres na política.
Entre as principais irregularidades identificadas pelo ministro do TSE estão: despesas com passagens aéreas sem a comprovação de utilização dos bilhetes, despesas dos diretórios estaduais sem comprovação da prestação de serviços e da vinculação com atividade partidária, não apresentação de notas fiscais de hospedagem e pagamento de hospedagem sem utilização de diária, entre outros.
Também com suas contas aprovadas com ressalvas, o DEM não foi condenado a devolver dinheiro aos cofres públicos, mas terá que direcionar mais de R$ 1 milhão do Fundo Partidário deste ano para financiar ações de incentivo à participação da mulher na política. O valor exato ainda será calculado, informou a assessoria o TSE.
PSOL, PSTU e PTC também tiveram suas contas aprovadas com ressalvas. Juntos, eles terão que devolver R$ 766 mil aos cofres públicos. Assim como o PT, o PSL teve suas contas reprovadas parcialmente, e terá que retornar R$ 114 mil ao erário.
Presentes na audiência, os advogados dos partidos expressaram preocupação em saber de onde as agremiações vão retirar os recursos a serem devolvidos, já que as cotas do Fundo Partidário deste ano não podem ser utilizadas para isso e, desde 2015, as legendas enfrentam restrições no recebimento de doações feitas por pessoas jurídicas. “Agora não sabemos de onde vamos tirar, vamos recorrer em relação a isso”, disse o advogado do PMDB, Renato Ramos.
Por email, o PSDB disse que seus advogados já apresentaram recurso contra a decisão, que, para o partido, “deixa de cumprir uma etapa importante da análise das contas do PSDB, conforme determina a própria resolução do TSE”. O partido não esclareceu qual etapa de análise teria sido descumprida.
Desaprovação parcial X aprovação com ressalva
Na sessão da quinta-feira, 27 de abril, o TSE reforçou sua jurisprudência de ser flexível com as irregularidades que fiquem abaixo dos 10% do total do Fundo Partidário recebido pela legenda no ano das contas julgadas. Foi o caso do PMDB, que por essa razão teve suas contas aprovadas com ressalvas e foi alvo de sanções mais brandas.
As irregularidades do PT, por outro lado, somaram mais do que 10% do Fundo Partidário recebido em 2011, motivo pelo qual a agremiação teve suas contas desaprovadas parcialmente e, além de ter que ressarcir dinheiro os cofres públicos, deixará também de receber parte dos recursos deste ano.
“Se não for isso, vai ser um rigor danado, demonstrando até os centavos. Não tem quem demonstre. Nem na sua conta pessoal você demonstra. Experimente puxar sua conta bancária. Tem coisa lá que você não sabe o que é”, disse o ministro Napoleão Nunes, ao ser questionado sobre a tolerância observada pelo TSE, cujo critério de 10% não possui respaldo em lei. É a velha margem do “jeitinho brasileiro”.

(Do portal EXAME.COM)

O sindicalismo agoniza

                                                Landisvalth Lima
O que o sindicalismo menos faz é lutar pelo trabalhador (foto: TV Tarobá)
É bom logo começar este artigo afirmando que toda generalização é burra. Há bons sindicatos e bons sindicalistas, mas a categoria está predominantemente dominada por interesses que, certamente, interessam muito pouco aos trabalhadores. Há muita desonestidade no comportamento e na pregação de muitos líderes sindicais. Eles apostam na desinformação e na pouca escolaridade da maioria esmagadora dos trabalhadores do Brasil. Trazem decorado na ponta da língua um discurso contra a manipulação da Rede Globo, da revista Veja e outros veículos de comunicação, mas rezam na mesma cartilha ou fazem manipulação grotescamente pior. 
Num debate a que assisti entre dois deputados, um insistia numa pergunta direcionada a um deputado da chamada esquerda: qual direito a reforma trabalhista tirava do trabalhador brasileiro? Terminou o debate e o deputado questionado não respondeu. E a resposta é uma só: nenhum. Talvez a palavra mais adequada seria “flexibilizar”. Até mesmo o nome “reforma” parece inadequado. Também não se pode dizer que tudo é prejudicial ao trabalhador. Há até mesmo ganhos.
Antes de pensar em escrever este artigo, li o texto aprovado pela Câmara dos Deputados, comparando com o que afirmam os sindicalistas e a imprensa “do Imperialismo americano”. Sinceramente, não vi nada que causasse algum trauma na classe trabalhadora, nem nada que venha provocar uma revolução na geração de empregos. Posso estar errado, mas muito pouca coisa mudará num futuro bem próximo. Senão, vejamos:
Com a jornada flexível, será possível trabalhar 12 horas seguidas, sem nenhum intervalo, e folgar 36h. Se não estou enganado, vigilantes já praticavam esta jornada. Agora ela está oficializada para outras profissões. Para isso, só será necessário um acordo formal escrito entre patrão e empregado. Com relação ao período de férias, que sindicalistas desonestos chegaram a espalhar que o governo acabaria, será possível dividir as férias em até três vezes, desde que um desses intervalos seja de pelo menos 14 dias. Não me vem à cabeça como isso pode prejudicar o trabalhador. Vale até informar que nem férias, 13º ou obrigatoriedade do pagamento do salário mínimo foram afetados. Tudo continua como dantes.
As chamadas “horas in itinere”, período em que o trabalhador leva para chegar ao trabalho em local de difícil acesso ou sem cobertura de transporte público, em condução fornecida pelo empregador, não contará mais como hora trabalhada. Neste caso o trabalhador vai ter que trabalhar mais. Aqui está claro o prejuízo. Entretanto, para aqueles empresários que não adotavam o transporte para os seus empregados, por se tratar de duplo gasto, agora já podem fazê-lo.
Outra coisa que pode ser prejudicial ao trabalhador, caso não seja praticada com certo cuidado, é o fato de a Justiça trabalhista, os Tribunais Regionais do Trabalho e o Tribunal Superior do Trabalho (TST) não poderão mais cancelar acordos contrários à lei. Ou seja, quaisquer acordos entre trabalhadores e patrões valem mais que a Lei. Isto poderá beneficiar o trabalhador quando o seu sindicato for realmente atuante. Trabalhadores desinformados, manipulados por empresários inescrupulosos ou sindicalistas pelegos, vão sofrer muito.
Outra coisa que pode ser também prejudicial ao trabalhador, principalmente aos desinformados, é que ele não terá mais direito à gratuidade processual quando não comparecer a primeira audiência ou quando a perícia der negativa. Também, a questão relacionada a danos morais e patrimoniais teve restrição de normas para se enquadrar nessas ações. Já o trabalho intermitente pode ser um ganho efetivo. Será permitido fazer um contrato para que o empregado trabalhe apenas algumas horas no dia ou dias da semana. E o mais importante: o trabalhador poderá prestar serviço para outra empresa nos outros períodos.
A questão da terceirização vejo como uma faca de dois gumes. Pelo período de 18 meses, o empregador não poderá demitir um funcionário e contratá-lo logo em seguida como terceirizado. Isso tanto pode fazer com que o trabalhador permaneça por mais tempo, e efetivo, como pode ser um estímulo à demissão.
Por falar em demissão, a lei também trata desta questão. O acordo de rescisão é uma nova modalidade. As outras continuam. Nesta, caso haja acordo entre as partes para a rescisão de contrato, o empregador terá que pagar apenas a metade do que hoje é estabelecido como aviso prévio indenizado e a multa de 40% sobre o saldo do FGTS. Também aqui o trabalhador não terá mais direito ao seguro-desemprego e só poderá sacar 80% do saldo do FGTS. A rescisão agora será feita na empresa, com advogados de ambas as partes, não sendo mais necessário o sindicato.
Este último ponto é que preocupa verdadeiramente os sindicatos. A reforma trabalhista está prejudicando muito mais os sindicatos que os trabalhadores. Pior é que os líderes sindicais não dizem isso. Não conseguem ser honestos e afirmarem que o governo Temer está dando um soco no estômago do sindicalismo. Logo eles que assinaram e referendaram o vice-presidente de Dilma e do PT, que para eles hoje é golpista, satânico e ilegítimo. Além disso, o sagrado imposto sindical anual será facultativo. A contribuição de um dia de trabalho para o sindicato da categoria do trabalhador, só poderá ser descontada do seu salário mediante prévia autorização do empregado.
Esta mudança deixou os sindicalistas tão atordoados que nem mesmo saber apelar para uma mudança ariscada, como o caso do trabalho de grávidas e lactantes, que agora poderão trabalhar em ambientes insalubres, desde que haja um atestado médico por parte do empregador mostrando que não há risco nem à mulher ou ao bebê, souberam. É que todos nós sabemos que há profissionais para o bem e para o mal. Num país onde é fácil conseguir com um amigo um atestado para faltar ao trabalho, não seria difícil encontrar um ou outro inescrupuloso para colocar em risco a vida de uma criança ou gestante. 
Pois bem, o sindicalismo no Brasil agoniza. Está mais que na hora da minoria, formada por bons e bravos sindicalistas, comecem a arrumar a casa. Precisamos que os sindicatos sejam realmente sindicatos dos trabalhadores e não satélites de partidos. Assim, reconquistarão adeptos e o dinheiro perdido com esta reforma poderá voltar para ser objeto de investimento nas reais necessidades dos seus filiados. Só assim esquecerão o insuficiente #foraTemer e pregarão os produtivos #foratodososcorruptos e #foratodosospelegos.

sábado, 15 de abril de 2017

Sífilis: o retorno

A Sífilis está de volta
Enquanto o dinheiro do povo brasileiro está irrigando os bolsos dos canalhas, colocando a nossa saúde e educação no lugar mais pobre da involução, uma doença, que chegou a ser considerada do passado, voltou com força em pleno século XXI: a sífilis. No final de 2016, o Ministério da Saúde admitiu que o Brasil vivia uma epidemia da doença. Em um ano (2014-2015), o número de casos entre adultos aumentou 32,7%. Esse crescimento, contudo, também pode ser observado em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aumento nesse mesmo período foi de 19%.
Chamada de “doença de mil faces”, ou a “grande fingidora”, por causa da multiplicidade de sintomas, a sua origem ainda é um mistério. Uma das hipóteses diz que teria sido levada da América para a Europa pelos navegadores de Cristóvão Colombo.  A face mais cruel da doença se apresenta justamente entre recém-nascidos. A chamada sífilis congênita, passada de mãe para filho, pode provocar abortos, partos prematuros, cegueira, surdez e até mesmo microcefalia. Os últimos números de 2015 mostram que a doença foi responsável pelo aborto e a morte de cerca de 1.500 bebês no Brasil.
No estágio mais avançado, ela provoca comprometimento em órgãos como o cérebro e o coração. No passado, muitas pessoas que foram diagnosticadas com problemas psiquiátricos, na verdade, desenvolveram manifestações tardias da sífilis, e ainda hoje ela pode ser confundida com Mal de Alzheimer, por exemplo. O grande artilheiro do Botafogo, Heleno de Freitas, morreu por causa de complicações decorrentes da doença.
A cura definitiva para a sífilis só veio através da descoberta da penicilina (1928), usada em grande escala durante a Segunda Guerra Mundial. Foi o primeiro antibiótico do mundo, mas hoje tem despertado pouco interesse por parte da indústria farmacêutica devido ao seu preço, considerado baixo no mercado. Atualmente, apenas a Índia e a China produzem a matéria-prima para a penicilina, o que vem provocando ondas mundiais de desabastecimento. Além disso, parece que a resistência ao antibiótico também pode ser visto como mais uma causa do retorno da doença.
Longe dos holofotes, a doença, que para muitos só existia nos livros de história, vai mostrando a sua face cruel, devastando vidas e contando com a colaboração de políticos inescrupulosos, que mais se preocupam em desviar o dinheiro da saúde, e do terrível preconceito. Muitas gestantes com sífilis preferem não se identificar e isso que revela bastante sobre antigos problemas que, de alguma forma, ainda persistem no nosso século: o tabu que envolve o sexo e o embate entre interesses econômicos e questões sociais.

(Com base em reportagem do portal da EBC – Empresa Brasileira de Comunicação)