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domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Dakota, o desenvolvimento e o escravismo moderno

                               Landisvalth Lima
Linha de produção da Dakota (foto:Jairo Andrade)
Muito já se falou, e é verdade, do quão significativa é a instalação de uma fábrica numa cidade do interior. Além de desenvolver a região, evita imigração para os grandes centros, já atolados em problemas por causa da alta densidade demográfica. Desde a entrada em funcionamento da fábrica da Dakota Calçados S/A em Poço Verde, em 1º de abril de 2014, vive o município sergipano a expectativa de, agora sim, desenvolver-se. Ocorre que não há desenvolvimento pleno sem qualidade de vida. Não se pode medir progresso apenas pelo aumento do nível de emprego ou arrecadação. Esta visão capitalista é selvagem.
Para entender o que aqui afirmo, é preciso fazer um histórico rápido sobre a vinda do grupo Dakota para nossa região. Fundada em 07 de dezembro de 1976, segundo informa o próprio portal, a Dakota é atualmente uma das maiores empresas calçadistas da América Latina, com 8 fábricas distribuídas nos estados do Rio Grande do Sul, Ceará e Sergipe. Sua capacidade de produção hoje é de 80.000 pares de calçados por dia, exportando para todo o mundo. O grupo está dividido em três empresas: A Dakota S/A, que mantém duas unidades no estado do Rio Grande do Sul, municípios de Sarandi e Nova Petrópolis; a Dakota Nordeste S/A, com quatro unidades no estado do Ceará, municípios de Quixadá, Maranguape, Russas e Iguatu e a Dakota Calçados S/A com duas unidades no estado do Sergipe, municípios de Simão Dias e Poço Verde. Hoje, o número de funcionários ultrapassa 12 mil em todo o grupo.
A empresa chegou a Poço Verde através dos incentivos fiscal e locacional concedidos pelo Governo de Sergipe – por meio do Programa Sergipano de Desenvolvimento Industrial (PSDI).  O investimento para construção da fábrica no município foi de exatos R$ 22.527.489,00, como informa detalhadamente o portal da Prefeitura Municipal de Poço Verde. A previsão inicial era de gerar 300 empregos, mas hoje beira 500 empregados e falam que a meta é chegar aos 2.500 funcionários, mesmo número que abriga atualmente a fábrica em Simão Dias. Portanto, a Dakota não veio para Poço Verde porque se encantou com o rio Real. Ela terá isenção de vários impostos por 25 anos, já que uma lei do governo Marcelo Déda ampliou o prazo que era de apenas 15 anos.
Dakota: calçados elegantes produzidos sob condições questionáveis
Tudo bem! Não havia outro meio para trazer a Dakota para cá. As regras são estas. Mas observem que não há nenhuma fábrica da Dakota em capitais ou em grandes centros industriais. Seria talvez uma forma de cooptar incentivos mais interessantes dos governos, claro. Mas é também uma forma de fugir da concorrência dos salários e das condições de trabalho oferecidos aos trabalhadores e da estrutura de sindicatos mais organizados. Não são poucas as queixas dos trabalhadores sobre as péssimas condições encontradas na empresa para se trabalhar. O tratamento dado é análogo ao trabalho escravo. Eu chamaria de escravidão moderna. E tudo isso para uma remuneração de salário mínimo. Um chegou a dizer que só estava ali porque já havia desistido de trabalhar na roça, mas a dureza da vida de agricultor ainda era melhor que um emprego na Dakota.
Vários casos inaceitáveis chegam aos nossos ouvidos e não são queixas de preguiçosos. Todos sabem que uma fábrica tem que produzir bem e cada minuto perdido vale ouro. O trabalho é intenso, mas não deve ser confundido com castigo. O empregado precisa de conforto para realizar sua atividade laboral. Além disso, ele tem que sair de casa e ir para o local de trabalho sem se parecer com alguém indo para a cadeia. O funcionário tem que vestir a camisa da empresa, defendê-la com prazer como se fosse um patrimônio também seu. Isto refletirá significativamente na produção e o lucro será cada vez maior. Para isso, o trabalhador terá que ser tratado como um colaborador, um coproprietário e receber dividendos do sucesso do empreendimento. 
Dá a impressão que a Dakota está se aproveitando da condição de ser a única fábrica em Poço Verde para colocar em prática um dos mais modernos processos de escravidão, coisa que foi detectada em empresas como a Zara. Essa coisa de vender a imagem de ser “chique” para o mundo da alta moda, mas manter funcionários trabalhando em condições subumanas, remunerando com o mínimo que a lei obriga não pode ser coisa aceitável numa empresa em pleno século 21. Pior ainda é, em pleno Carnaval, obrigar todos a comparecerem ao trabalho, inventando a desculpa esfarrapada de que não é feriado municipal, como alegou a empresa em postagem no CNNPV, do professor Jorge Leal. Será que o diretor industrial da Dakota, Onório Rodrigues da Silva, não sabe que há empresas que precisam dos feriados para faturarem e que as pessoas precisam do carnaval para desfilarem com suas Dakotas nos pés e viver um pouco mais a vida? Acho eu que ele ainda não descobriu que o lazer não é só para quem gosta, mas uma necessidade para o organismo. Afinal, viver é, acima de tudo, ter qualidade de vida.