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terça-feira, 14 de maio de 2013

O exemplo de Foz do Iguaçu: a cidade que abraçou a educação

      A revista ISTOÉ, edição 2368, do dia 3 deste mês, mostrou como a união entre professores, pais, alunos e autoridades de Foz do Iguaçu reverteu em pouco tempo índices ruins de aprendizado no ensino básico e conseguiu bater, inclusive, metas estipuladas para 2022.

Laura Daudén, de Foz do Iguaçu – da revista ISTOÉ.
REFORÇO
A escola Papa João Paulo I instituiu aulas no turno
oposto ao regular para melhorar a aprendizagem
Uma música infantil anuncia o final do recreio e os alunos do 5ºA se aglomeram no corredor para colar na parede os poemas feitos por eles pouco antes. Entre as mãos que recortam, dobram e apontam estão as da professora Ana Pereira. Mais do que disposição em ajudar os alunos, chama a atenção a camiseta que ela orgulhosamente veste. Na parte de trás, em números garrafais, uma nota: 7,2. Essa é a média conquistada pela escola municipal Adele Zanotto, de Foz do Iguaçu, no último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que conjuga dados sobre evasão e reprovação com os resultados das avaliações externas – no caso das escolas municipais, a Prova Brasil. Quanto maior o número na classificação do Ideb, melhor a posição. Ver professores e funcionários vestindo, literalmente, a camisa de suas instituições mostra a importância que a educação básica ganhou na cidade paranaense. Entre os municípios brasileiros com mais de mil alunos matriculados no 5º ano do ensino fundamental, Foz é o que exibe o melhor desempenho. Bate, inclusive, a meta estipulada pelo movimento Todos Pela Educação para 2022 (ver quadro) e é um exemplo de como a mobilização da comunidade pode revolucionar a aprendizagem em pouco tempo.
A conquista é recente. Segundo Joane Vilela, ex-secretária municipal de educação e atual secretária-adjunta na pasta de educação da cidade de São Paulo, em 2001 o índice de reprovação na rede era de 13% e chegou a 15% em 2009. Foi o sinal de alerta. “Instituímos o Plano de Estudos Individualizados no turno oposto para alunos com dificuldades, com grande incentivo à leitura e à escrita, e o acompanhamento de frequência e desempenho”, diz ela. O retorno foi tão rápido que o vereador Dilto Vitorassi (PV) demandou em fevereiro a criação de uma comissão especial na Câmara para investigar eventuais irregularidades na aplicação da Prova Brasil de 2011. “Não encontramos qualquer indício de fraude para maquiar o resultado”, diz o vereador Nilton Bobato (PCdoB), relator da comissão. Descartada a possibilidade de fraude, cabe à cidade se concentrar em manter os bons resultados. E terá de fazer isso sob uma nova gestão, provando que o compromisso vai além da política. Depois de oito anos, a administração do PDT, liderada pelo prefeito Paulo Mac Donald Ghisi, deu lugar ao PSB de Reni Pereira. A nova secretária municipal de Educação, Shirlei de Carvalho, promete abraçar o desafio. Ex-diretora da escola Santa Rita de Cássia, que obteve 8,6 no Ideb, a nota mais alta do Brasil, ela promete dar sequência aos programas de maior destaque da cidade. Entre eles, está o que garante visitas semanais de uma equipe multidisciplinar, formada por um fonoaudiólogo, um assistente social e um psicólogo, a todas as instituições da rede e o prêmio Professor Paulo Freire, que oferece uma dotação em dinheiro aos professores e escolas que liderarem as experiências e os projetos bem-sucedidos no ano. Um dos homenageados na edição de 2009 foi o professor Fernando Lima, hoje supervisor da escola Santa Rita de Cássia, para quem a ênfase nos projetos é um dos grandes trunfos da escola-modelo. “A aposta nesses programas criou um vínculo forte com as crianças e suas famílias”, diz. Um desafio, entretanto, é a transição para a rede estadual de ensino. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) mostram que a porcentagem de alunos com conhecimentos adequados de português cai de 77% para 26% entre o 5o e o 9o ano. Em matemática a situação se repete: o índice despenca de 81% para 24%.
Um dos segredos do êxito de Foz do Iguaçu, segundo a ex-secretária Joana Vilela, é o envolvimento de toda a cidade. “Vimos a proliferação de mobilizações com o objetivo de garantir a todos os alunos da rede o direito à aprendizagem”, diz. Os resultados do esforço coletivo são evidentes na escola Suzana Moraes de Balen, na periferia. A diretora Rozilda Luísa dos Reis e a coordenadora pedagógica Beatriz Martins formaram uma dupla forte para driblar os problemas de evasão e cobrar o envolvimento dos pais no dia a dia do colégio. Juntas, elas passaram a ir de casa em casa buscando os alunos que faltavam com frequência. “Tivemos que lidar até com ameaças porque às vezes víamos o que não podíamos ver”, conta Rozilda. A iniciativa só foi possível porque ambas tinham legitimidade para desempenhar o trabalho. Em Foz, tanto diretores quanto coordenadores são escolhidos pela comunidade. “É importante que o entorno veja a escola como uma parte importante dele mesmo, especialmente em regiões mais vulneráveis”, afirma o economista Ernesto Martins Faria, coordenador do site QEdu da Fundação Leman e da Meritt, e um dos responsáveis pela pesquisa Excelência com Equidade.
Do outro lado do município, a escola Papa João Paulo I também é um exemplo de como a união entre comunidade, diretores e professores pode transformar a realidade em tempo recorde. Foi lá que a diretora Janeci Maria Werdt, no cargo há 22 anos, fez sua pequena-grande revolução. Diante dos resultados negativos na Prova Brasil de 2007, ela decidiu recorrer à associação de pais e professores para contratar um docente que desse aula para os alunos do 5o ano no período inverso – um programa de reforço em contraturno, que depois foi adotado em toda a rede municipal a partir do 1o ano. “Começamos uma guerra contra os números. “Trabalhávamos manhã, tarde e noite para reverter a situação”, diz. Deu resultado. De 4,8 no Ideb em 2007 a escola passou para 8,4 em 2011.
Apesar de ser um fator objetivo para auferir proficiências, especialistas ainda divergem sobre a importância que se deve dar ao resultado das avaliações externas. “Elas não podem ser a única matriz ao redor da qual gira o currículo da escola”, diz Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, sublinhando que os rankings escondem as diferenças das quais as escolas partem e estimulam o desequilíbrio, e não a igualdade do sistema. “As provas criam, no entanto, um referencial relativamente confiável para os colégios, permitindo que a evolução dos alunos seja acompanhada ao longo dos anos.” Para ele, esse movimento já era observado na rede particular tendo como ponto de partida os vestibulares. “A novidade é que as escolas públicas aderiram ao processo”, completa. E agora, com uma base de comparação, podem empreender os avanços educacionais necessários.