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sábado, 23 de fevereiro de 2013

ISTOÉ fala sobre a segunda condenação de Yoani


Perseguida em seu país pelo delito de opinião, a blogueira cubana enfrenta no Brasil uma turba disposta a impedir que ela fale
Pedro Marcondes de Moura – da revista ISTOÉ
BLOQUEIO DE IDEIAS
Yoani Sánchez foi cercada por ativistas durante toda a sua
viagem pelo Brasil.
 Eles exigiam seu silêncio, mas
acabaram ampliando sua voz
"Seu maior crime, doutores julgadores, é o de pensar diferente. É o chamado delito de opinião, crime que os códigos não condenam. Crime de impunidade democrática. Crime dos homens livres e das nações soberanas." Foi com esse libelo que a advogada Mércia Albuquerque defendeu, em 1967, o líder comunista Gregório Bezerra, processado pela ditadura militar. Naqueles dias cinzentos de expurgos e prisões arbitrárias, os argumentos da advogada foram solenemente desprezados pelos juízes fardados. Hoje os tempos no Brasil já são outros, mas um idêntico desprezo pela liberdade de pensamento foi revelado agora por ativistas que herdaram os antigos partidos perseguidos da esquerda brasileira. A democracia, como se vê, não venceu por inteiro.
A blogueira cubana Yoani Sánchez, 37 anos, já perdeu as contas de quantas vezes foi detida em seu país por delitos de opinião. Ao visitar o Brasil, na última semana, ela ganhou como recepção uma espécie de segunda condenação. Conhecida por narrar as privações e violações aos direitos humanos em Cuba no blog "Generación Y", Yoani tornou-se alvo de protestos de setores de esquerda simpáticos a Fidel e Raúl Castro. Foi hostilizada e xingada de "traidora" e "agente da CIA" por manifestantes mais dispostos ao enfrentamento do que ao debate. Todos os estridentes detratores estavam livres para se organizar e expressar seus ideais. Já na Cuba revolucionária que defendem, um ato desses, sem a bênção do Estado, poderia levá-los à prisão.
Depois de cerca de cinco anos de espera e 20 autorizações de saídas para viagens internacionais negadas pelas autoridades cubanas, Yoani Sánchez desembarcou no Recife na madrugada da segunda-feira 18. Foi o início de um tour político de quase 80 dias por mais de 12 nações em que pretende denunciar arbítrios e injustiças do regime dos irmãos Castro. Em solo brasileiro, sob vaias, Yoani disse que assistia a "um banho de pluralismo e de democracia". Claques formadas por manifestantes de movimentos sociais, estudantis e alas radicais do PCB, PCdoB e PT se agruparam para confrontá-la em eventos públicos. Mesclaram gritos de "Fora, Yoani" ou "Traidora" com outros ainda mais fortes. Seguraram cartazes acusando-a de ter contas no exterior. Impediram que ela falasse ao público e atiraram-lhe dólares falsos em referência a documentos revelados pelo Wikileaks que mostram encontros da blogueira com diplomatas americanos em Havana. Conseguiram até adiar a exibição do documentário "Conexão Cuba-Honduras", principal motivo de sua vinda. Se assistissem ao filme, dirigido pelo brasileiro Dado Galvão e que conta com o depoimento de Yoani Sánchez, veriam cenas de dissidentes do castrismo sendo presos por explicitarem opiniões.
Manifestantes manipulados acabaram dando mais voz a Yoani
O governo brasileiro recebeu denúncias de que a ação de turbas de protesto contra Yoani teriam sido fomentadas pela embaixada de Cuba e seus serviços de informação. Se isso fosse verdade, se estaria frente a uma trapalhada daquelas, dignas de entrar para os anais da espionagem internacional. A cada enfrentamento, os militantes não conseguiram nada além de lançar mais holofotes para a "perigosa dissidente". Yoani possui como arma apenas o poder de comunicação. Dispara à opinião pública sua visão crítica ao regime e com os protestos pode explicitar a diferença entre a liberdade de expressão no Brasil e na ilha de Fidel. "Ela não fala nada novo", diz Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da UERJ. "Agora, esses militantes morderam a isca. Era só deixá-la falar o que quisesse e passear em paz", comenta. A repercussão das manifestações levou a Câmara dos Deputados a receber Yoani Sánchez com status de autoridade na quarta-feira 20. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), ela assistiu a um trecho do documentário e viu parlamentares de partidos da base aliada e oposicionistas divergirem sobre a sua presença. Era mais um ato impensável em Cuba, onde existe apenas uma legenda oficial. "O Parlamento do meu país tem um triste histórico, nunca recusou uma lei. Nunca realizou um debate com opiniões divergentes", ironizou a blogueira.