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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sultão de Omã controla protestos com repressão e benesses


MARCELO NINIO - enviado especial de A Folha de São Paulo a Mascate (capital de Omã)
Em Narka, no norte de Omã, mulher aponta candidato em lista durante a 1ª eleição
municipal da história do país.
(foto:Marcelo Ninio/Folhapress) 
A professora Israa Ajmi, 26, acordou cedo, vestiu negro dos pés à cabeça -figurino das mulheres de seu vilarejo- e caminhou apressada até a escola onde dá aulas, convertida em seção eleitoral. Era 22 de dezembro e Israa esbanjava otimismo após votar na primeira eleição municipal da história de Omã, pequeno país no golfo Pérsico que tenta se adaptar aos ventos da Primavera Árabe. "É importante para que minha voz seja ouvida", disse a professora do vilarejo de Barka (norte), sem ligar para os opositores, que viram na votação pouco mais que uma medida cosmética. Quase dois anos após os primeiros protestos contra o regime, na esteira das revoltas que sacudiram o mundo árabe, a eleição municipal foi uma das respostas do sultão Qaboos bin Said às demandas de abertura política. No poder desde 1970, quando depôs o pai num golpe pacífico, o sultão foi pego de surpresa ao sentir o terremoto da Primavera Árabe chegar a seu país, tradicionalmente um oásis de estabilidade na região. Embora sem a fúria vista em outras nações árabes, a calma foi abalada por uma série de manifestações e greves, que chegaram a paralisar o setor petroleiro, responsável por metade da economia de Omã. Os protestos começaram na cidade portuária de Sohar (norte), onde a Vale abriu uma unidade em 2012, e chegaram à capital, Mascate. Os manifestantes não pediam a queda do regime, mas melhores salários e um sistema mais democrático. Por cautela e reconhecimento à popularidade do sultão, que modernizou o país. Quando o monarca assumiu o poder, Omã tinha apenas três escolas. Hoje tem mais de 1.200. O PIB (Produto Interno Bruto) per capita foi multiplicado por 80 e é mais que o dobro do brasileiro. Protestos eram novidade para a polícia, e a resposta inicial foi dura. Dois manifestantes morreram a tiros e dezenas foram presos.
AÇÃO RÁPIDA
Em contraste com outros regimes autoritários da região, porém, o sultão não se limitou à repressão, e agiu rapidamente para atender às demandas sociais e políticas. Em poucos meses, o monarca dobrou o salário mínimo, criou benefícios sociais, abriu milhares de vagas -a maioria nas forças de segurança- e fez faxina no gabinete, demitindo ministros impopulares. A repressão e as benesses possibilitadas pelas receitas do petróleo abafaram os protestos. Na charmosa Mascate, cercada por fortes do período da colonização portuguesa, o clima é de descontração. Europeias de minissaia passeiam ao lado de moradoras cobertas com o véu muçulmano, diante do reluzente iate do sultão ancorado na baía, que já virou atração turística. Uma ditadura "benigna", definiu um estrangeiro que vive na capital. O mais charmoso Estado policial do mundo, descreveu outro. Mas com todos os poderes nas mãos do sultão, a insatisfação permanece viva na internet, insuflada por blogueiros perseguidos pelo regime. Aos 72 anos, o sultão nunca casou ou teve filhos. Mas um peculiar sistema de sucessão foi incluído na lei básica, a Constituição do país. Um conselho da família real apontará o sucessor após a morte do sultão. Se não houver acordo, será entronada a pessoa apontada pelo sultão numa carta secreta. A falta de transparência incomoda os opositores. "Omã é um Estado policial. Há olhos por toda parte. Críticas ao governo não são toleradas", diz Khalfan, 30. Especialista em segurança industrial, ele perdeu o emprego em uma fábrica de alumínio após publicar críticas ao regime no Facebook. Khalfan não desmente o discurso oficial de que o sultão é amado por seus súditos e estima que 80% da população apoia o monarca. Apesar disso, ele não vê contradição em manter os protestos na internet. "Mudanças sempre são iniciadas por uma minoria", afirma, falando baixo num café à beira-mar. De acordo com a organização Repórteres sem Fronteiras, 28 ativistas foram condenados a penas entre seis meses e um ano de prisão. À Folha o ministro da Informação, Abdulmunim al Hasani, disse que a Justiça agiu de forma independente. E assegurou que o regime continuará o processo de abertura política, "passo a passo".