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sábado, 1 de dezembro de 2012

Relacionamento de Lula com Rose incomodava Marisa

Rosemary Noronha

A influência exercida pela ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, no governo federal, revelada em e-mails interceptados pela operação Porto Seguro, decorre da longa relação de intimidade que ela manteve com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Rose e Lula conheceram-se em 1993. Egressa do sindicato dos bancários, ela se aproximou do petista como uma simples fã. O relacionamento dos dois começou ali, a um ano da corrida presidencial de 1994. À época, ela foi incorporada à equipe da campanha ao lado de Clara Ant, hoje auxiliar pessoal do ex-presidente. Ficaria ali até se tornar secretária de José Dirceu, no próprio partido. Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido.
Em 2002, Lula se tornou presidente. Em 2003, Rose foi lotada no braço do Palácio do Planalto em São Paulo, como "assessora especial" do escritório regional da Presidência na capital. Em 2006, por decisão do próprio Lula, foi promovida a chefe do gabinete e passou a ocupar a sala que, na semana retrasada, foi alvo de operação de busca e apreensão da Polícia Federal. Nesse papel de direção, Rose contava com três assessores e motorista. Sua tarefa era oficialmente "prestar, no âmbito de sua atuação, apoio administrativo e operacional ao presidente da República, ministros de Estado, secretários Especiais e membros do gabinete pessoal do presidente da República na cidade de São Paulo". Durante 19 anos, o relacionamento de Lula e Rose se manteve oculto do público. Em Brasília, a agenda presidencial tornou a relação mais complicada. Quando a então primeira-dama Marisa Letícia não acompanhava o marido nas viagens internacionais, Rose integrava a comitiva oficial. Segundo levantamento da Folha tendo como base o "Diário Oficial", Marisa não participou de nenhuma das viagens oficiais do ex-presidente das quais Rosemary participou.
Integrantes do corpo diplomático ouvidos pela reportagem, na condição de anonimato, afirmam que a presença dela sempre causou mal-estar dentro do Itamaraty. Na opinião deles, a ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo não era necessária. Oficiais da Aeronáutica se preocupavam com o fato de que ela por vezes viajava no avião presidencial sem estar na lista oficial. Em muitas vezes, Rose seguia em voos da equipe que desembarca antes do presidente da República para preparar sua chegada. Nessas viagens, seguranças que guardavam a porta da suíte presidencial nas missões fora do Brasil registravam ao superior imediato a presença da assessora. Oficiais do cerimonial elaboravam roteiro e mapa dos aposentos de modo a permitir que o presidente não fosse incomodado.
Durante esses quase 20 anos, Rose casou-se duas vezes. Seu primeiro marido, José Cláudio Noronha, trabalhou na Casa Civil do então ministro José Dirceu quando Rosemary assumiu o escritório de São Paulo. Na chefia do gabinete, ela construiu a fama de pessoa de temperamento difícil. Lula chegou a receber de amigos reclamações dando conta de que ela tratava mal os funcionários. Um deles descreveu um episódio em que ela teria pedido para serventes limparem "20 vezes" o chão do escritório até que ficasse realmente limpo. Apesar do temperamento, Rose era discreta e não gostava de contato com a imprensa. Em algumas festas e cerimônias, controlava a porta de salas vips, decidindo quem podia ou não entrar. Também costumava se consultar com o médico de Lula e da presidente Dilma Rousseff, Roberto Kalil. Rose acompanhou o ex-presidente em algumas internações durante o período em que este se recuperava do tratamento de um câncer no Sírio-Libanês, em São Paulo. Mas só pisava no hospital quando Marisa Letícia não estava por perto. Na campanha presidencial de 2006, a chefe de gabinete circulou nos debates televisivos que Lula teve com o tucano Geraldo Alckmin. Ministros e amigos do ex-presidente não negam o relacionamento de ambos. Foi de Lula a decisão de manter Rosemary em São Paulo, conforme relatos de pessoas próximas. Procurado pela Folha, o porta-voz do Instituto Lula, José Chrispiniano, afirmou que o ex-presidente Lula não faria comentários sobre assuntos particulares.

Entenda a OPERAÇÂO PORTO SEGURO

Paulo Rodrigues Vieira
23 de Novembro, 2012
Operação é deflagrada
A Polícia Federal (PF) prende seis pessoas e indicia mais 12, acusados de participação em um esquema de fraudes de pareceres técnicos em agências reguladoras e órgãos federais, em operação realizada em São Paulo e Brasília. Entre os presos estão os irmãos Paulo Rodrigues Vieira, diretor da Agência Nacional de Águas (ANA); Rubens Carlos Vieira, diretor de Infraestrutura Aeroportuária da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac); e Marcelo Rodrigues Vieira, também da Anac. PF indicia chefe de gabinete da Presidência em São Paulo e nº 2 da AGU.

Rosemary Nevoa de Noronha
24 de Novembro, 2012
Dilma afasta envolvidos
Um dia após a deflagração da operação, a presidente Dilma Rousseff exonera ou afasta do cargo todos os servidores acusados de participação no esquema de corrupção em agências reguladores e órgãos federais. Entre os exonerados estão Rosemary Nevoa de Noronha e José Weber Holanda, nº 2 da AGU.

Valdemar Costa Neto
25 de Novembro, 2012
Ligação com Valdemar Costa Neto
Documentos da Operação Porto Seguro obtidos pelo GLOBO revelam que o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) tinha estreitas ligações com Paulo Rodrigues Vieira, apontado pela PF como o chefe da quadrilha. Apontado como o padrinho de Rosemary Noronha desde sua ida para o governo, o ex-presidente Lula disse que recebeu com surpresa e grande insatisfação a participação de Rosemary no esquema. "Eu me senti apunhalado pelas costas", disse o ex-presidente.

Paulo Cyonil
27 de Novembro, 2012
Dirceu é citado
Delator do esquema de venda de pareceres descoberto na Operação Porto Seguro, o ex-auditor de Controle Externo do TCU em São Paulo Cyonil da Cunha de Borges de Faria Júnior citou em depoimento à polícia que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu tinha interesse no processo do órgão, que investigava a conduta da empresa Tecondi. A firma usava instalações portuárias que não estavam previstas na concorrência inicial feita em 1998 pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), e, por isso, era alvo da ação do TCU.

José Weber Holanda
29 de Novembro, 2012
Favorecimento na AGU
O GLOBO informa que Paulo Vieira redigiu para José Weber Holanda, então número 2 da AGU, parecer em que o órgão facilita o reconhecimento de utilidade pública para fins privados, com supressão de Mata Atlântica, da Ilha dos Bagres, em Santos (SP), projeto de interesse do ex-senador Gilberto Miranda. No mesmo dia, Rosemary Noronha diz que não fez "nada de ilegal ou imoral para favorecer Dirceu ou Lula". No dia seguinte, O GLOBO publica que Weber repassava à quadrilha mensagens trocadas entre advogados da União.
Informações de O GLOBO e da FOLHA DE SÃO PAULO.